Se até o eleitor historicamente mais fiel começa a hesitar, o que resta da fortaleza política de um presidente?
As últimas pesquisas indicam um dado desconfortável: mesmo sem Jair Bolsonaro no páreo direto, Lula não consegue converter expectativa em crescimento.
À primeira vista, parece um paradoxo. Sem o rival que monopolizava a polarização, o caminho deveria estar mais aberto. Mas não está.
A explicação simplista — “a economia ainda não reagiu” — não basta. O problema é mais profundo: a perda de magnetismo junto ao público que sempre sustentou o lulismo.
O Bolsa Família, pilar da popularidade petista, já não exerce o mesmo efeito político. Funciona como política pública, mas perdeu potência como narrativa.
O beneficiário de hoje não é o mesmo de 2003. É mais conectado, mais cético, mais consciente de que auxílio não substitui ascensão.
Lula, ao retornar ao poder, apostou na ideia de continuidade: reeditar conquistas passadas. Mas o Brasil de 2025 não é o Brasil do início do século.
A memória afetiva que sustentava o carisma se desgasta quando confrontada com realidades de insegurança, inflação e serviços públicos precários.
O vazio deixado por Bolsonaro não foi ocupado por Lula, mas por um sentimento difuso de desconfiança em relação a todos.
Esse fenômeno sugere algo maior: a polarização, longe de enfraquecer, pulverizou-se. Em vez de um antagonista claro, o governo enfrenta múltiplas frentes de descrédito.
A retórica de “volta da esperança” parece insuficiente para quem vive, no cotidiano, a precariedade de empregos e a erosão do poder de compra.
Não se trata apenas de popularidade. É a base social do lulismo que se reconfigura. O eleitor pobre não abandonou o Estado, mas cobra mais dele.
Programas de transferência de renda continuam relevantes, mas já não bastam como identidade política. O vínculo automático se rompeu.
Isso explica por que nem o afastamento de Bolsonaro traz dividendos. O antipetismo pode estar menos barulhento, mas a indiferença cresce em silêncio.
É um alerta: governos caem menos pela força da oposição e mais pela erosão gradual do apoio de dentro.
O caso atual sugere que Lula enfrenta um desgaste estrutural, não conjuntural. O problema não é quem está fora do jogo, mas quem já não entra em campo para defendê-lo.
A pergunta que fica é perturbadora: se até o eleitor de baixa renda — tradicionalmente a âncora do lulismo — começa a se distanciar, que nova narrativa pode substituir o pacto social construído há duas décadas?
Porque sem essa resposta, nem o retorno do passado nem a ausência de Bolsonaro garantirão futuro.
E o enigma da estagnação permanecerá como o sinal mais eloquente da política brasileira: o país mudou, mas seus líderes ainda não perceberam.

