O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, declarou que não ficará inerte diante de eventuais questionamentos relacionados à condução do caso Banco Master no âmbito da Corte, caso tais questionamentos venham a ser formalizados e demandem apreciação institucional. A afirmação foi feita em entrevista ao jornal O Globo e repercute em um contexto de crescente debate público sobre a transparência e a atuação dos magistrados no processo que envolve uma das maiores crises financeiras recentes no Brasil.
Fachin, que acumula a presidência da mais alta corte do país, reforçou que não pode antecipar juízo de valor sobre questões que ainda não foram objeto de análise pelos órgãos colegiados do tribunal. “Como presidente do tribunal, não posso antecipar julgamentos sobre situações que eventualmente serão apreciadas pelo colegiado”, disse o ministro, em referência ao papel institucional do STF diante de matérias sensíveis.
O pronunciamento ocorre em meio a pressão de segmentos políticos e jurídicos que questionam a continuidade do ministro Dias Toffoli como relator das investigações referentes ao Banco Master, que tiveram grande repercussão após denúncias de fraude e irregularidades financeiras. Parte das críticas está centrada em supostos vínculos familiares e situações que podem gerar conflito de interesses.
Entre os pontos levantados pela imprensa e por integrantes da sociedade civil, estão relatos de que parentes próximos de Toffoli tiveram participação em empreendimentos ligados a fundos de investimento que, por sua vez, mantiveram relações com empresas conectadas ao banco investigado. Essas informações alimentaram pedidos formais de análise de suspeição, ainda pendentes de decisão institucional.
Embora Fachin tenha enfatizado que questões não jurisdicionais não devem orientar o julgamento técnico da Corte, ele deixou claro que não permanecerá passivo caso o processo venha a ser provocado formalmente a se manifestar sobre a relatoria ou eventuais irregularidades. “Uma coisa é certa: quando for necessário atuar, eu não vou cruzar os braços. Doa a quem doer”, afirmou o presidente do STF.
O ministro ressaltou ainda que quaisquer alegações de irregularidade na condução do inquérito serão apreciadas conforme o regimento interno do tribunal, em instância colegiada, sem que ele faça juízo antecipado sobre o mérito dessas alegações, mantendo, assim, o princípio constitucional do devido processo legal.
O caso Banco Master refere-se a uma investigação em curso no STF que apura supostas irregularidades na gestão e operação da instituição financeira, bem como possíveis fraudes envolvendo a negociação de ativos sem lastro e a tentativa de aquisição de carteiras de crédito pelo Banco Regional de Brasília (BRB). As investigações apontam para indícios de organização criminosa, gestão fraudulenta e manipulação de mercado.
A Polícia Federal já realizou diligências, como a tomada de depoimentos de executivos e representantes de instituições envolvidas, sob a ordem do relator Dias Toffoli, em sessões que têm sido sigilosas, como parte da estratégia investigativa.
Além disso, a Procuradoria-Geral da República (PGR) reconheceu a regularidade da permanência de Toffoli como relator das investigações, após a análise dos pedidos de afastamento formulados por parlamentares e outros atores políticos, reforçando a interpretação de que não há, até o momento, elementos formais que justifiquem a substituição do magistrado no caso.
Em paralelo ao debate institucional, a crise envolvendo o banco causou impacto econômico significativo, incluindo a intervenção do Banco Central e a liquidação extrajudicial da instituição, diante de problemas de liquidez e indícios de ativos falsos ou sem lastro real, situação que afetou milhares de clientes e investidores no país.
A atuação de Toffoli também foi defendida por outros ministros do STF, como o decano Gilmar Mendes, que em redes sociais afirmou que o relator tem agido em conformidade com os parâmetros constitucionais e processuais, respaldado pela análise técnica da PGR.
Críticos da condução do processo, incluindo membros de seções da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), indicaram que casos dessa natureza, envolvendo supostas fraudes bancárias, poderiam ser tratados inicialmente na primeira instância da Justiça Federal, em vez de serem levados diretamente ao Supremo, alegando que a Corte estaria além de sua competência constitucional ao centralizar o caso.
Todavia, a jurisprudência firmada em decisões anteriores e a citação de figuras com foro privilegiado nas investigações motivaram a fixação da competência do STF para análise das suspeitas, como determinado por Toffoli no início de dezembro de 2025, quando tramitou a transferência da investigação da Justiça Federal para a Corte.
A discussão sobre a necessidade de um código de conduta para ministros do Supremo também ganhou relevância no contexto, com Fachin mencionando a importância de aprimorar parâmetros éticos e de transparência para fortalecer a legitimidade institucional da Corte.
Analistas jurídicos observam que a atuação de Fachin ao reafirmar que não ficará “de braços cruzados” pode ser interpretada como uma tentativa de equilibrar a defesa da autonomia judicial com a necessidade de responder às pressões públicas e políticas decorrentes da notoriedade do caso.
A avaliação de especialistas aponta que a Corte enfrenta um momento de acirramento de tensões, entre os princípios de independência judicial e a crescente exigência de transparência em processos que envolvam figuras públicas ou instituições financeiras de grande impacto econômico.
Em todo esse contexto, a postura de Fachin e a dinâmica interna do STF têm sido observadas atentamente por agentes políticos, operadores do direito e pela sociedade civil, uma vez que as decisões tomadas no âmbito da Suprema Corte podem moldar precedentes sobre o tratamento de crises financeiras e eventuais conflitos de interesse no sistema judiciário.
O presidente do STF também enfatizou a importância do respeito ao Estado de Direito e ao funcionamento regular das instituições, especialmente em momentos de controvérsias que possam afetar a confiança pública na justiça e nas estruturas de governança democrática.
Especialistas em direito constitucional destacam que o trâmite de eventuais recursos ou alegações de irregularidade será conduzido de acordo com as normas regimentais internas do STF, com decisões colegiadas que visam resguardar a segurança jurídica e o equilíbrio institucional na Corte.
No cenário político mais amplo, a controvérsia em torno do Banco Master se insere em um contexto de intenso escrutínio sobre práticas financeiras, responsabilidades regulatórias e o papel das autoridades judiciais na condução de processos complexos que tocam interesses públicos e privados.
À medida que o STF e seus ministros avançam na análise dos desdobramentos do caso Master, a expectativa entre operadores do direito é de que as decisões internas preservem os princípios constitucionais e garantam a imparcialidade necessária para enfrentar uma das mais sensíveis questões judiciais na atualidade.

