Munição do CV vem de estoques da polícia e do exército, prova investigação

Investigações policiais no estado do Rio de Janeiro trouxeram à tona uma das vertentes mais inquietantes da logística criminosa contemporânea: munições compradas por organismos oficiais de segurança, incluindo polícias estaduais e o Exército Brasileiro, estão sendo desviadas e abastecem a facção Comando Vermelho (CV) que atua nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital fluminense. A apuração dessa dinâmica partiu de apreensões de cargas de projéteis que tinham como destino comunidades sob controle da organização, apontada como uma das maiores do país em capacidade bélica e territorial.

Segundo relatos oficiais, o rastreamento da munição ocorreu a partir de lotes marcados — um procedimento obrigatório para projéteis vendidos a forças públicas em virtude do Estatuto do Desarmamento. A partir dessa identificação, equipes da Polícia Civil conseguiram estabelecer que parte significativa dos cartuchos encontrados em operações recentes estava vinculada a compras efetuadas por polícias estaduais como a do Rio de Janeiro, de Mato Grosso, do Distrito Federal e da Bahia, além de lotes destinados ao Exército.

Parte dessa munição foi interceptada dentro de veículos, bagagens de ônibus interestaduais e até escondida em aparelhos de uso doméstico, como churrasqueiras elétricas, antes que pudesse chegar aos traficantes. Os métodos utilizados para o transporte dos materiais sugerem uma rede de logística sofisticada e integrada, aproveitando canais de circulação comuns para ocultar o fluxo de armamentos.

Em um dos episódios que compõem o conjunto de apurações, uma carga de munição destinada ao Complexo da Penha foi apreendida em 18 de junho de 2019 em Santa Maria, no Distrito Federal. Abordado em estrada, o veículo transportava projéteis em diferentes calibres, inclusive 7,62 e 5,56 — ambos utilizados em fuzis de uso restrito.

A investigação policial identificou ainda que os carregamentos tinham vínculos com alvos específicos no Rio de Janeiro. Um motorista detido relatou ter sido contratado para entregar munição em pontos pré-estabelecidos em áreas de domínio do CV, mencionando a presença de integrantes da facção como intermediários dos repasses.

Uma análise técnica detalhada revelou que foram encontrados 41 lotes diferentes de munição produzidos pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) associados a órgãos públicos, o que reforça a conclusão de que o abastecimento da facção não resultou apenas de contrabando internacional, mas também de desvios internos no país.

Dentre os lotes identificados, um, denominado BRR52, havia sido adquirido pelo Fundo de Segurança Pública de Mato Grosso para equipar suas forças policiais. Outro, identificado como BJK88, estava registrado como destinado à Polícia Militar do Rio de Janeiro. Também foram encontrados cartuchos associados ao Exército Brasileiro e ao Fundo Constitucional do Distrito Federal.

Investigações anteriores já haviam mostrado que a presença de lotes de munição vinculados ao Exército em episódios de violência remontava a acontecimentos como a chacina nos municípios de Osasco, Barueri e outras cidades da Região Metropolitana de São Paulo em 2015. Naquele episódio, projéteis com marcas oficiais também foram apreendidos.

O esquema de desvio também apresentou aspectos humanos: elementos cooptados, incluindo civis e militares, teriam participado da logística de transporte e entrega dos materiais. Em um dos casos, uma ex-servidora dos Bombeiros do Distrito Federal foi apontada como responsável por transferir munições para indivíduos ligados à organização criminosa.

Apesar de prisões terem sido efetuadas no âmbito das apurações — incluindo, por exemplo, membros de quadrilhas especializadas em roubos de cargas de munição — boa parte das linhas de investigação permanece aberta, com esforços concentrados em identificar a totalidade das redes que facilitam a circulação desses materiais.

Especialistas em segurança pública consultados por autoridades policiais destacam que falhas nos sistemas de controle de consumo e inventário de munições nas corporações de segurança facilitam desvios. Treinamentos, uso cotidiano e justificativas administrativas acabam por fragilizar o rastreamento real desses materiais dentro das forças.

O Comando Vermelho, além de ser uma facção criminosa com atuação consolidada há décadas no Rio de Janeiro, possui uma estrutura que combina tráfico de drogas, controle territorial e acumulação de recursos por meio de atividades criminosas. Essa configuração permite à organização reinvestir seus ganhos em logística bélica, inclusive na aquisição de armas e munições de alto poder de fogo.

A presença de munição comprada legalmente por forças de segurança remetida ao arsenal de grupos como o CV amplia a complexidade da crise de segurança pública no Brasil. A interligação entre desvios internos e a circulação ilícita de armamento evidencia fragilidades tanto no monitoramento de materiais restritos quanto na cooperação entre instituições de controle.

Autoridades civis e militares ouvidas durante as investigações ressaltam que a legislação brasileira exige marcação e rastreamento rigoroso de projéteis destinados a forças públicas, justamente para evitar que lotes oficiais circulem no mercado ilícito. No entanto, auditores de segurança apontam que a implementação desses mecanismos enfrenta resistências logísticas e de recursos em diversas unidades.

Uma das linhas investigativas envolve militares reformados ou em serviço que, supostamente, teriam facilitado o fornecimento de munição para grupos criminosos — inclusive por meio de contatos prévios com integrantes das quadrilhas ou por oferecerem acesso direto aos estoques oficiais.

Os responsáveis por essas redes de abastecimento são alvo de inquéritos e, em algumas situações, já responderam a processos criminais com desdobramentos na esfera civil e militar. Essas apurações seguem em segredo de justiça em muitos casos, dificultando a total revelação das interações entre agentes públicos e grupos armados.

Enquanto as investigações continuam, operações policiais de grande porte continuam a apreender armas e munição nas áreas dominadas pelo Comando Vermelho. Em algumas delas, como grandes ofensivas recentes na Penha e no Alemão, os órgãos policiais conseguiram confiscar dezenas de fuzis e milhares de cartuchos, reconhecendo a importância desses materiais para a manutenção do poder de fogo da facção.

No âmbito político, o episódio reforça debates sobre a necessidade de modernização e reforço dos sistemas de controle interno das corporações de segurança pública e das Forças Armadas, bem como de maior integração das bases de dados de rastreamento de armamento entre estados e esferas federativas.

Especialistas ouvidos por órgãos públicos enfatizam que a interrupção dessas cadeias de abastecimento passa tanto pela investigação criminal rigorosa quanto por uma revisão mais ampla das práticas de gestão de estoques e das políticas de transparência no uso de munições pelas instituições estatais.

Até o momento, as secretarias de segurança dos estados mencionados não forneceram respostas detalhadas sobre a origem das munições apreendidas, nem sobre medidas corretivas adotadas para impedir novos desvios. Autoridades do Rio de Janeiro informaram que controladoria e corregedorias seguem investigando os fatos.

A continuidade dessas apurações pode ter efeitos diretos na forma como o Estado brasileiro estrutura seus mecanismos de controle de materiais sensíveis, bem como na percepção pública sobre os riscos associados ao ciclo ilícito de armamentos em zonas urbanas densas sob influência de grupos criminosos.

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