Mulher abandona bebê de 11 meses no chão da calçada

Como uma bebê com poucos dias de vida termina sozinha em uma calçada de Goiânia?
Na manhã de 29 de dezembro de 2024, a menina foi localizada abandonada em uma rua da capital de Goiás, envolta em cobertores e já com hematoma na testa e escoriação no pé esquerdo.

O gesto — de deixar um ser humano recém-nascido na via pública — é ao mesmo tempo extremo e revelador: mostra o colapso de redes invisíveis de acolhimento e o esmorecimento da proteção que se espera da sociedade.
Os bombeiros foram acionados, prestaram atendimento imediato e transportaram a criança à Maternidade Municipal de Aparecida de Goiânia.

Mas o que realmente está em questão não é apenas o ato individual de abandono — é o cenário que o permitiu.
Quando a sociedade falha em cuidar dos seus mais vulneráveis, o abandono deixa de ser exceção para se tornar sintoma.

As vias públicas, normalmente espaços de passagem, transformaram-se em zonas de invisibilidade para quem não tem voz.
A calçada onde a bebê foi deixada não é só um endereço — é um retrato direto da negligência estrutural.

Os vizinhos reagiram com humanidade: envolveram-a em manta, uma mulher a amamentou temporariamente até a chegada dos socorristas.
Esse gesto de solidariedade espontânea é comovente — e assustador, pois aponta que o elo social sobrevive mais em atos pontuais de cidadãos do que em políticas sistemáticas.

A investigação da quem abandonou a criança corre no âmbito da Polícia Civil, segundo registros.
Mas a interrogação que persiste é maior: o que permitiu que ela fosse deixada ali? Qual a falha institucional que precedeu o ato?

Temos esferas múltiplas de falha: em saúde, em assistência social, em educação e, muitas vezes, na dignidade mínima de cuidarmos dos nossos filhos.
Quando se abandona uma recém-nascida, o erro não está no momento — está no processo que chegou até ele.

Há uma dimensão simbólica que incomoda: esse bebê, sem nome ainda, sem identidade, representa milhões de vozes silenciadas.
Ela é o fragmento mais puro de uma sociedade que administra vidas como se fossem descartáveis.

O caso deve servir como alerta para a assistência materno-infantil em Goiás — e para todo o país.
Não basta erguer hospitais ou postos de saúde se o suporte humano não alcança o que há de mais frágil.

Também é chamada à reflexão para nós como comunidade: como aceitamos que uma criança possa ser deixada à própria sorte?
Em que medida nossas redes de cuidado são reais ou apenas simbólicas?

A esposa da sociedade deveria ser o abraço, não a calçada fria.
E a responsabilidade, coletiva, não recai apenas sobre quem abandona — mas sobre quem tolera que isso aconteça.

Porque o abandono de uma bebê é um crime — mas também é um fracasso social.
É o espelho que não queremos ver: de que valoramos menos quem chega sem sombra.

O caso de Goiânia, portanto, não é somente notícia.
É convocação.

Será que estaremos prontos para responder como sociedade — antes que outra vida caia em silêncio na calçada?

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