Movimento “Exclua um Esquerdista Psicopata da Vida” vem crescendo

Quem decide, hoje, quem merece ser expurgado da vida social — e por quê?

Vem ganhando força nas redes um rótulo que mistura vigilância privada e justiçamento: o tal “Exclua um Esquerdista Psicopata da Vida”.

Não é apenas um meme. Segundo quem promove a ideia, o movimento nasceu em grupos de WhatsApp e foi disseminado em Instagram e X como resposta a postagens consideradas intoleráveis.

O gatilho — real e brutal — foi a disseminação e a comemoração online em torno do assassinato do ativista Charlie Kirk, evento que reconfigurou a narrativa pública sobre violência política.

Imagens e vídeos do ataque se espalharam em minutos, inflamando reações e criando um terreno fértil para campanhas de denúncia e vingança digital.

Em paralelo, campanhas como “Demita Extremistas” passaram a pedir sanções profissionais contra perfis que celebraram a violência, unindo pressão pública e empresarial.

Deputados e influenciadores aparecem expondo perfis e pedindo punições — um motor político que transforma indignação em ação prática.

A primeira leitura conveniente é moral: quem vibra com assassinato merece exclusão. É sedutor. Mas a segunda leitura, mais urgente, é institucional: quem valida esse processo de exclusão?

Há uma elasticidade perigosa no rótulo “psicopata”: ele despolitiza o adversário e o reduz a um traço patológico, justificando ostracismo sem prova.

Isso tem efeitos concretos. Relações de trabalho, amizades e redes familiares viram-se expostas a julgamentos públicos instantâneos. Demissões ocorrem antes de averiguações completas.

Os algoritmos amplificam o estrondo. Uma captura de tela vira denúncia, que vira imprensa, que vira decisão laboral. O ciclo é curto e raramente previsível.

Erro e má-fé ganharam voz com a mesma intensidade que a justa indignação. Identidades podem ser falsamente atribuídas; piadas e ironias são lidas como apologia.

Políticos e empreendedores entenderam que esse clima gera capital simbólico. Movimentos de purga valem atenção, apoio e seguidores — e, por isso, tendem a proliferar.

Do ponto de vista jurídico, estamos num terreno acidentado: liberdade de expressão, segurança, direito ao trabalho e proteção contra difamação chocam-se sem regras claras.

Se a sociedade fosse um sistema imunológico, hoje ele está em sobreativação: neutraliza inimigos reais e mata também células essenciais à convivência pública.

Alternativas existem. Processos transparentes, moderação independente e mecânicas de reparação poderiam converter vingança em responsabilização legítima.

Sem estruturas assim, corremos o risco de normalizar a segregação moral como política pública informal — e isso corrói a confiança básica entre cidadãos.

O que importa não é apenas expulsar quem erra. É decidir como a comunidade decide — e com que critérios transparência, proporcionalidade e direito à defesa são garantidos.

Se não repensarmos, o futuro será menos sobre quem tinha razão e mais sobre quem soube gritar mais alto no momento certo. E isso é ruim para todos nós.

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