Entrar em um carro de aplicativo virou um gesto automático, quase como escovar os dentes.
Confiamos nossa vida a um estranho porque um ícone na tela do celular nos diz que aquele trajeto é seguro.
Mas o caso da adolescente de 17 anos no Distrito Federal rasga essa sensação de segurança e expõe a verdade nua e crua.
O motorista, que deveria ser apenas um prestador de serviço, transformou o veículo em uma armadilha.
A prisão desse homem de 43 anos não é apenas mais um registro policial; é um sinal de alerta sobre o sistema em que vivemos.
As empresas de tecnologia vendem a ideia de que o GPS e as “estrelinhas” de avaliação são escudos contra o crime.
Na prática, essas ferramentas são muitas vezes apenas uma maquiagem para esconder a falta de controle real sobre quem está no volante.
O GPS registra o caminho, mas ele é incapaz de impedir que uma porta seja travada ou que uma agressão comece.
A adolescente acreditou no “contrato” invisível que todos assinamos ao baixar um aplicativo: o de que chegaríamos ao destino em paz.
Quando esse contrato é quebrado da forma mais violenta possível, o trauma que fica é para a vida inteira.
Precisamos parar de tratar esses casos como “fatalidades” isoladas e olhar para a raiz do problema.
As plataformas de transporte lucram bilhões, mas o investimento em segurança parece nunca ser suficiente para evitar o pior.
O processo de seleção de motoristas muitas vezes prioriza a quantidade de carros na rua em vez da qualidade e do histórico de quem dirige.
O resultado é um ambiente onde o predador encontra a oportunidade perfeita, disfarçado de trabalhador comum.
O carro, que deveria ser um meio de liberdade e movimento, vira uma cela de metal em movimento.
E a pergunta que fica no ar é: onde estava a tecnologia de “segurança em tempo real” enquanto o crime acontecia?
A resposta curta e dolorosa é que a tecnologia é ótima para cobrar tarifas, mas falha miseravelmente em proteger corpos humanos.
A justiça agora fará o seu papel de punir o culpado, mas ela chega sempre depois que o estrago já foi feito.
O Estado e as empresas precisam parar de jogar a responsabilidade um para o outro e assumir que o sistema atual é frágil.
Não podemos aceitar que o preço da modernidade seja o risco constante de uma violação.
A segurança não pode ser um item de luxo ou uma promessa vazia em um comercial de TV.
Se o aplicativo sabe onde você está, quem você é e quanto tem no banco, ele deveria, por obrigação, garantir que você saia do carro viva.
Enquanto a inovação não vier acompanhada de proteção real, cada viagem continuará sendo uma aposta perigosa.
A pergunta final que todos devemos nos fazer é: até quando vamos confiar cegamente em uma tela enquanto ignoramos o perigo que se senta ao nosso lado?
