Motociclista m*rre após b*ter em vaca e população *squart*j* o animal ainda vivo

Como explicar que uma bebê com poucos dias de vida tenha sido deixada sozinha em uma calçada de Goiânia — envolta em cobertores e com hematoma na testa?
O resgate, feito pelos bombeiros no último domingo (29), desvela mais que abandono: revela um fio solto na trama do cuidado coletivo.

A criança foi encontrada sem identificação, em estado de vulnerabilidade explícita: escoriação no pé esquerdo, hematoma na testa, sobrevivendo ao frio por obra da solidariedade de moradores.


O detalhe mais agudo talvez seja esse: antes da intervenção estatal, foi o acolhimento espontâneo que lhe salvou o primeiro crédito de vida.

Quando o espaço público vira depósito de abandono, algo se rompe: o contrato social que nos promete que “ninguém ficará para trás”.
Aqui, a calçada torna-se símbolo da invisibilidade — não apenas de um bebê, mas de sistemas que falharam antes desse momento.

Há falhas múltiplas: na saúde que deveria atender gestantes em vulnerabilidade; no serviço social que deveria amparar mães em crise; no laço comunitário que deveria evitar que a vida se transforme em objeto descartado.
Reunir todos os vetores seria tarefa hercúlea — mas essencial se quisermos ir além do choque inicial.

O abandono de incapaz é crime previsto no Código Penal. Mas o processo que antecede o crime — o isolamento, o desamparo, a invisibilidade — raramente recebe o mesmo protagonismo.
Essa bebê abandonada é o sintoma, não a causa.

Quando moradores se tornam socorristas improvisados, isso diz duas coisas ao mesmo tempo:
Que a sociedade ainda preserva o instinto de cuidado — e que as instituições já não chegam a tempo.
O contraste é cruel.

O município, o estado, o sistema — todos devem responder por que permitiram que uma vida tão nova chegasse à calçada.
Não basta investigar quem abandonou. É preciso perguntar por que ninguém intermediou antes.

A cena em Goiânia nos lembra de que vulnerabilidade extrema não acontece em isolamento.
Ela é produto de redes soltas, de processos interrompidos, de visibilidade negada.

O que uma recém-nascida sozinha na rua ensina é que a criança não é apenas futuro — ela é presente radical.
E exigir para ela não apenas sobrevivência, mas dignidade, significa reconstruir a lógica pública.

Essa lógica exige mais que protocolo: exige sensibilidade.
Não basta que o bebê seja levado a uma maternidade; basta que entendamos que chegar lá já é falhar antes.

O sentimento que mais dói talvez seja o da oportunidade perdida — de evitar que ela estivesse sozinha.
E esse tipo de falha não costuma aparecer em manchetes longas. Mas existe. E persiste.

Para além do alívio coletivo com o resgate, há um teste: estamos prontos para transformar o horror visível em ação invisível?
Para que a próxima vez, não exista próxima vez?

Porque a vida que foi deixada na calçada é o grito mais silencioso que já ouvimos — e que ainda não respondemos plenamente.

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