A recente polêmica envolvendo as redes sociais, o Banco Master e o Alexandre de Moraes — ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) — reacendeu um debate sobre fraudes financeiras, conflito de interesses e desinformação. A acusação, feita por comediantes e divulgada nas plataformas X e Instagram, defende que o banco teria registrado um rombo de R$ 60 bilhões e que, para encobrir o escândalo, Moraes teria ordenado a remoção de postagens que vinculavam o suposto prejuízo à sua esposa, Viviane Barci de Moraes. A seguir, os fatos, as checagens e o contexto do caso, com atenção ao rigor das informações disponíveis até o momento.
De acordo com perfis de humor e de oposição política, a alegação seria de que o Banco Master teria um desfalque bilionário de aproximadamente R$ 60 bilhões, e que o ministro do STF teria usado sua influência para censurar referências públicas sobre o envolvimento de sua esposa. Essa narrativa viralizou em redes sociais, ganhando compartilhamentos e repercussão em fóruns e grupos de apoio político. A figura usada para propagar essa versão foi o humorista Léo Lins.
Entretanto, investigações jornalísticas e checagens de fatos desmontam tais afirmações. Segundo o serviço de verificação Agência Lupa, não há qualquer evidência de que Moraes tenha determinado a remoção de publicações relacionadas ao caso.
De igual forma, não existe vínculo comprovado entre Viviane Barci de Moraes — ou seu escritório de advocacia — e a fraude investigada no Banco Master. A contratação do escritório ocorreu, de fato, mas com restrição: Viviane teria atuado em algumas poucas ações de cunho judicial para o banco, sem qualquer conexão com os supostos títulos fraudulentos que agora viraram alvo da polícia.
O próprio banco havia contratado o escritório, onde trabalham a esposa e dois filhos do ministro. Essa relação era conhecida desde meados de 2025, quando a contratação foi revelada por veículos como O Globo.
Apesar da contratação, um levantamento no acervo processual do STF não encontrou casos em que o escritório representasse o Banco Master em processos relacionados à crise que agora motiva a investigação da Polícia Federal (PF) — o que fragiliza qualquer alegação de participação da advogada no escândalo financeiro.
A crise em torno do Banco Master ganhou força após a deflagração da operação da PF batizada de Operação Compliance Zero, que apura a emissão de títulos de crédito falsos por instituições que integravam o sistema financeiro nacional. Como parte da investigação, o proprietário e presidente do banco, Daniel Vorcaro, foi preso em 17 de novembro de 2025.
Em paralelo, o Banco de Brasília (BRB) informou que entre as carteiras compradas do Master havia cerca de R$ 12,7 bilhões em créditos que, conforme a PF, eram inexistentes. Nos comunicados públicos, o BRB informou ter liquidado ou substituído R$ 10 bilhões desses créditos, e que a exposição direta restante não representava mais risco ao banco.
Segundo decisões judiciais, os supostos créditos forjados vendidos pelo Master ao BRB corresponderiam a mais de 20% da carteira de crédito do banco estatal, o que teria comprometido sua liquidez. A acusação aponta que essa seria a estratégia usada para inflar o balanço do Master artificialmente.
É fundamental sublinhar que, até o momento, não há indícios públicos de que Viviane Barci de Moraes — ou seu escritório — tenha participado de qualquer ato ilícito, fraudes ou irregularidades no esquema investigado. As contratações judiciais anteriores seriam limitadas e sem relação com os créditos questionados.
Também não há registro de atuação de Moraes, ou de determinação dele, para censurar posts ou remover publicações sobre o tema. Essa versão foi atribuída a um perfil humorístico nas redes — e replicada repetidamente —, o que compromete qualquer pretensão de veracidade da acusação.
Autoridades ou instituições envolvidas no caso — como o STF, a PF ou o Banco Central do Brasil (BC) — não confirmaram qualquer pedido formal de retirada de conteúdos ou atuação de Moraes nesse sentido.
A repercussão, porém, expõe um fenômeno mais amplo: a facilidade com que narrativas jornalísticas deturpadas ou sem comprovação se disseminam rapidamente nas redes sociais, especialmente quando envolvem figuras públicas e instituições de relevância. A combinação de crise bancária, fraude em grande escala e menção a nomes influentes cria terreno fértil para desinformação e para teorias conspiratórias — mesmo sem elementos concretos.
Especialistas ouvidos por veículos de checagem alertam para a necessidade de cautela diante desses conteúdos: a associação de contratações de escritórios de advocacia com fraude financeira exige provas robustas, e não meras conjecturas. A mera existência de um contrato judicial — mesmo envolvendo parentes de autoridades — não constitui, por si só, indício de envolvimento em irregularidades.
No contexto do Banco Master, a investigação se concentra nas operações de crédito que teriam sido falsificadas — no volume de bilhões de reais — e nas possíveis falhas éticas e criminais de quem negociou ou validou esses instrumentos. Até o momento, não há evidências públicas de que o escritório da esposa do ministro tenha desempenhado papel relevante nesse contexto.
O episódio destaca, ainda, a importância da checagem de informações em momentos de crise e de grande comoção pública. As ferramentas de verificação, o jornalismo investigativo e o acesso à documentação oficial são instrumentos essenciais para separar fatos de boatos — especialmente quando circulam acusações graves e com alto potencial de dano reputacional.
Diante disso, mesmo após as denúncias e repercussão intensa nas redes, o que se tem como concreto hoje é: o Banco Master enfrenta investigação por suposta fraude; o BRB foi afetado por operações de crédito questionadas; a advogada Viviane Barci de Moraes foi contratada pelo banco, mas sem participação detectada na fraude; e não há provas de que o ministro Alexandre de Moraes tenha mandado remover postagens que mencionavam sua esposa ou o banco.
Em resumo, a acusação de que haveria um rombo de R$ 60 bilhões no Banco Master ligado a um contrato com a empresa da esposa de Alexandre de Moraes, e de que o magistrado teria determinado censura a conteúdos nas redes sociais, não se sustenta frente às evidências disponíveis — até o momento. O que existe, com respaldo em investigação e documento, é um grave escândalo financeiro envolvendo fraudes e falsificação de créditos, cujo impacto atinge depositantes, instituições e o sistema bancário como um todo.
O caso segue em investigação, com possíveis desdobramentos judiciais e novos questionamentos sobre responsabilidade, compliance, auditoria e ética. A sociedade acompanha agora os movimentos da PF, do BC e do FGC, além das reações públicas e institucionais, com atenção redobrada ao risco de desinformação.

