Moradores do Complexo da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, levaram pelo menos 55 corpo para a Praça São Lucas

Ninguém esperava amanhecer assim.
Na Praça São Lucas, o chão virou altar improvisado: 55 corpos lado a lado, levados por moradores que, sem respostas, transformaram o espaço público em denúncia silenciosa.

A cena é brutal e simbólica.
No coração do Complexo da Penha, a população não apenas chora — ela conta os mortos, porque o Estado parece incapaz, ou relutante, em fazê-lo.

O governo do Rio afirmou na véspera que 60 “criminosos” morreram na megaoperação conjunta na Penha e no Alemão.
Mas, um dia depois, surgem corpos que não aparecem em nenhuma planilha oficial.

Segundo o secretário da PM, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, os mortos da praça “não constam na contabilidade” da operação.
A frase — burocrática e seca — diz muito sobre o abismo entre quem governa e quem é governado.

A matemática da guerra urbana é incerta, mas o saldo humano é evidente: quatro policiais mortos, dezenas de famílias devastadas e uma comunidade que, de novo, se vê entre o medo e a descrença.

Há algo profundamente doente em uma sociedade que naturaliza o acúmulo de cadáveres como prova de sucesso operacional.
A retórica da “guerra ao crime” segue exigindo sacrifícios humanos — quase sempre, os mesmos corpos, nos mesmos CEPs.

Enquanto a perícia tenta determinar se os 55 mortos da praça têm relação com a operação, o que está em jogo é mais do que um número.
É o limite moral de um Estado que, ao combater o crime, repete seus métodos mais cruéis.

O que significa “vitória” quando a população local precisa recolher corpos e levá-los à praça para ser ouvida?
O que significa “ordem” quando a lei se impõe pela força, mas falha em garantir justiça?

A ADPF das Favelas, julgada pelo STF em 2020, buscava exatamente evitar esse tipo de tragédia: limitar o uso da força, exigir planejamento e transparência, e reduzir a letalidade.
Quatro anos depois, o que se vê é o esvaziamento dessas medidas — e a volta da lógica de extermínio como política pública.

Há quem argumente que o Estado não pode recuar diante do tráfico.
Mas confundir enfrentamento com aniquilação é um erro histórico que o Rio repete há décadas.

A operação “Contenção” prometia devolver o controle às autoridades.
No entanto, as imagens da Penha revelam algo oposto: um Estado que perdeu o controle sobre si mesmo.

Quando a violência se torna rotina, a linha que separa o legítimo do inaceitável se apaga.
E é nesse apagamento que a barbárie encontra espaço para se vestir de legalidade.

Os 55 corpos da praça são mais do que vítimas — são o testemunho do fracasso de uma política que, ao tentar “pacificar”, multiplica o luto.

Agora, o país observa, em silêncio ou em negação, enquanto a Penha se transforma em espelho.
Porque o que aconteceu ali não é exceção — é um retrato ampliado de um Brasil que ainda não aprendeu a contar seus mortos.

No fim, a pergunta que fica não é “quantos morreram?”, mas “quem ainda acredita que essa guerra tem vencedores?”.

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