O governo argentino autorizou oficialmente a entrada de militares dos Estados Unidos no país. A medida foi confirmada por decreto presidencial publicado no Diário Oficial e provocou debate interno sobre a legalidade do ato.
A decisão partiu do presidente Javier Milei, que abriu caminho para a presença de tropas norte-americanas em exercícios militares conjuntos. O texto estabelece que os soldados estrangeiros atuarão em atividades já programadas para o mês de outubro.
De acordo com o documento, o primeiro exercício será realizado entre 6 e 10 de outubro, em Puerto Varas, no Chile. Batizado de “Solidariedade”, contará com a participação das forças chilenas e terá como foco a cooperação em casos de desastres naturais.
A segunda operação, denominada “Trident”, acontecerá de 20 de outubro a 15 de novembro. Nesse período, tropas norte-americanas e argentinas treinarão em bases localizadas em Mar del Plata, Ushuaia e Puerto Belgrano.
Segundo informações do decreto, a atividade prevê treinamentos conjuntos em cenários de combate, operações navais e missões de assistência humanitária. A iniciativa tem como objetivo fortalecer a integração entre os dois países.
Apesar da justificativa oficial, a medida chamou atenção por contornar procedimentos previstos na Constituição argentina. Pela lei, a entrada de tropas estrangeiras precisa ser aprovada previamente pelo Congresso Nacional.
O governo alegou que um projeto de lei com esse propósito já foi enviado ao Legislativo. No entanto, até o momento, a proposta não foi discutida nem votada pelos deputados.
Especialistas em direito constitucional alertam que a decisão pode gerar questionamentos jurídicos. Isso porque o decreto presidencial, embora válido, não substitui a autorização parlamentar exigida pela Carta Magna.
Analistas políticos também avaliam que o movimento representa um gesto de aproximação de Milei com os Estados Unidos. O presidente argentino já havia demonstrado interesse em reforçar os laços com Washington em diferentes áreas.
O contexto internacional ajuda a explicar o cenário. A presença norte-americana na América do Sul tem aumentado, especialmente em função da pressão exercida contra a Venezuela de Nicolás Maduro.
Nos últimos meses, os Estados Unidos intensificaram acusações contra o governo venezuelano, alegando ligação de Maduro com o cartel de Los Soles, classificado como organização terrorista por Washington.
Esse posicionamento abriu espaço para maior mobilização militar norte-americana em águas do Caribe e da América Latina. Nesse contexto, a Argentina aparece como aliada estratégica.
Além da Argentina, outros países sul-americanos, como Paraguai e Equador, já se alinharam às medidas dos Estados Unidos. Ambos também reconheceram oficialmente o Los Soles como grupo terrorista.
A aproximação de Milei com Washington é vista como parte de uma política externa mais alinhada a governos conservadores da região. Isso reforça a percepção de que Buenos Aires busca se distanciar de blocos tradicionais de integração regional.
A participação em exercícios conjuntos não é inédita, mas o envio de tropas estrangeiras ao território argentino costuma ser tratado com cautela. Em governos anteriores, o processo sempre envolveu consultas formais ao Congresso.
Setores da oposição criticaram o decreto, alegando que a decisão fere princípios constitucionais. Para esses grupos, a medida pode abrir precedentes perigosos para a autonomia do país em questões militares.
Já aliados de Milei defendem que a cooperação com os Estados Unidos fortalece a segurança regional e amplia a capacidade de resposta da Argentina a cenários de crise.
Enquanto o debate político se intensifica, os preparativos para os exercícios seguem em andamento. O cronograma divulgado prevê deslocamento de tropas e equipamentos ainda nos primeiros dias de outubro.
A repercussão internacional também é aguardada. Observadores diplomáticos destacam que países vizinhos acompanharão de perto os desdobramentos, especialmente diante do atual contexto geopolítico.
O episódio mostra como a política externa de Milei busca reposicionar a Argentina no cenário internacional, mesmo que isso implique enfrentar disputas jurídicas e tensões políticas internas.

