Intoxicações por metanol saltam para 113 casos com 12 mortes confirmadas, conforme balanço recente divulgado pelo governo federal. Em meio à crescente preocupação, o Ministério da Saúde emitiu alerta à população para evitar o consumo de bebidas destiladas de origem duvidosa ou sem rótulo confiável.
Segundo o Ministério, o número de notificações — somando casos confirmados e suspeitos — subiu para 113, conforme dados atualizados. Dentre esses casos, 12 foram confirmados como mortes diretamente atribuídas à ingestão de metanol adicionado a bebidas alcoólicas adulteradas.
O metanol, substância altamente tóxica, não pertence às bebidas de consumo humano. Quando metabolizado no organismo, converte-se em compostos como formaldeído e ácido fórmico, capazes de provocar danos graves ao sistema nervoso e ao funcionamento de órgãos vitais. Mesmo pequenas doses podem causar cegueira ou levar ao óbito.
O surto iniciado em agosto de 2025 foi associado à venda de destilados adulterados, como gin, uísque e vodca. Essas bebidas, muitas vezes comercializadas em ambientes informais e sem fiscalização, podem ter recebido metanol para simular potência alcoólica, prática criminosa que põe em risco vidas.
O estado de São Paulo concentra a maioria dos casos: 11 mortes suspeitas em investigação e uma já confirmada até o momento. Outros sete óbitos estão em apuração, sendo dois em Pernambuco e os demais em diferentes municípios paulistas. O ministério também confirmou 11 casos laboratoriais de contaminação pelo metanol.
Em Pernambuco, três casos suspeitos foram registrados, com duas mortes e uma pessoa que teve perda de visão bilateral como sequela permanente. Os pacientes foram atendidos no Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru.
No Distrito Federal, autoridades confirmaram dois casos suspeitos e interditaram uma distribuidora que vendia bebidas sem licença. A Secretaria de Saúde local intensificou a fiscalização em bares, restaurantes e distribuidores de bebidas.
A tendência de elevação nos casos levou o Ministério da Saúde a ativar uma Sala de Situação extraordinária, com reuniões regulares para monitorar os casos, coordenar ações e articular respostas entre esferas federal, estaduais e municipais.
Uma medida emergencial adotada inclui a constituição de estoques estratégicos de etanol farmacêutico em hospitais universitários federais e unidades do SUS, totalizando cerca de 4,3 mil ampolas já distribuídas. Também foi iniciada a aquisição de antídotos do tipo fomepizol, medicamento não disponível no Brasil, por meio de parcerias internacionais e de organismos como a OPAS.
A Anvisa também abriu processo para identificar fornecedores internacionais capazes de fornecer fomepizol. A expectativa é que 100 tratamentos sejam doados pela OPAS e que outras unidades sejam adquiridas pelo país. A agência ainda mobilizou 604 farmácias de manipulação para produzir etanol farmacêutico em casos de necessidade local.
Profissionais de saúde foram instruídos a notificar suspeitas de intoxicação por metanol imediatamente ao CIEVS, sem necessidade de esperar confirmação laboratorial, o que já ampliou a captação de casos em São Paulo, Pernambuco e no Distrito Federal
Em discurso público, o ministro Alexandre Padilha enfatizou a articulação entre órgãos federais, Anvisa, vigilâncias estaduais e municipais, e a integração dos sistemas de informação em saúde. Ele ressaltou que a situação atual é “anormal” e inédita na história recente de intoxicações por metanol no Brasil.
Além disso, o ministério determinou que as unidades de saúde adotem protocolos clínicos específicos para esses casos, dispondo orientações sobre sinais, sintomas e aplicação de antídotos, além de capacitar equipes médicas para diagnóstico e manejo emergencial.
Os sintomas iniciais da intoxicação por metanol incluem náuseas, vômitos, dor abdominal e sonolência, que podem evoluir entre 6 e 24 horas para visão turva, fotofobia, convulsões ou coma. A intervenção médica o mais rápido possível é fundamental para reduzir danos permanentes.
Como medida de prevenção, o Ministério alerta para evitar consumir bebidas de procedência desconhecida, sem rótulo, sem selo fiscal ou sem lacre de segurança. Em bares, recomenda-se não aceitar doses oferecidas por estranhos e checar a origem do produto.
O órgão também reforça três recomendações para quem consome álcool: não dirigir, manter-se bem alimentado e hidratado antes e durante o consumo, além de garantir a procedência da bebida ingerida.
Especialistas apontam que vinho e cerveja, por serem bebidas fermentadas, apresentam menor risco de contaminação por metanol, embora não fiquem isentas em casos de procedência duvidosa.
Em São Paulo, o histórico de intoxicações por bebidas adulteradas não é novo. Em 1992, eventos semelhantes resultaram em mortes após consumo de bebidas “batizadas”, como o caso da cachaça misturada com groselha no Grande ABC.
Além disso, episódios como o da chamada “cachaça da morte”, ocorrido no começo da década de 1990 na Bahia e no Piauí, lembram os riscos letais vinculados ao uso de metanol clandestino em bebidas.
A legislação brasileira define um limite máximo tolerável de metanol nos destilados — 20 mg por 100 mL de álcool anidro — mas bebidas clandestinas frequentemente superam esse patamar em larga margem.
Para reforçar a vigilância, estados e municípios receberam nota técnica orientando notificação imediata de casos suspeitos. Também foi instalada uma estrutura para mapear a cadeia de distribuição dessas bebidas e identificar locais de adulteração.
Diante da gravidade do cenário, especialistas alertam que o consumo de destilados de origem não confiável pode representar risco à saúde pública à escala nacional, exigindo engajamento de autoridades, fiscalização e conscientização da população.

