Meu deus! Bebê de dois anos cai do terceiro andar em condomínio de Cuiabá

Como um bebê de dois anos sobrevive a uma queda do terceiro andar sem fraturas?

A pergunta ecoa não apenas pelo ineditismo do caso ocorrido em Cuiabá, mas pelo incômodo de perceber o quanto a sorte ainda pesa mais que a prevenção no cotidiano de milhares de famílias brasileiras.

 

Na última quarta-feira (1º), um menino de dois anos e meio caiu da sacada de um condomínio. A mãe estava na cozinha, e bastaram segundos para que a criança abrisse a porta, subisse em uma cadeira e, sem tela de proteção, despencasse.

 

O desfecho poderia ter sido fatal. Não foi — e essa talvez seja a parte mais perturbadora da história. Porque a exceção tende a criar uma ilusão: a de que acidentes assim são improváveis.

 

Não são. Segundo dados do Ministério da Saúde, quedas estão entre as principais causas de hospitalização infantil no Brasil. Sacadas, janelas e escadas compõem um território silencioso, mas perigoso, dentro do lar.

 

O pai, aliviado ao ver o filho sem fraturas, narrou ao g1 que a criança “passa bem”. Mas o “passar bem” não deveria encerrar a discussão. Deveria, ao contrário, abri-la.

 

Por que condomínios modernos ainda entregam apartamentos sem redes de proteção como padrão? A economia de custos justifica o risco permanente para crianças pequenas?

 

A negligência, nesse caso, não é apenas individual. Ela é também estrutural. A ausência de uma legislação clara que obrigue mecanismos de segurança mínimos em prédios residenciais é um silêncio que custa caro.

 

Há ainda o aspecto cultural. No Brasil, a noção de “casa segura” costuma se restringir a fechaduras contra invasores, não a barreiras contra acidentes domésticos.

 

Esse olhar seletivo revela uma contradição: investe-se em proteção contra ameaças externas, mas ignora-se o perigo que mora dentro de casa.

 

Não se trata de culpar a família, mas de compreender a engrenagem social que transforma o acaso em protagonista da sobrevivência.

 

O episódio em Cuiabá mostra como uma distração de segundos pode se converter em tragédia. O detalhe desconcertante é que bastaria uma rede de proteção — item de baixo custo e fácil instalação — para eliminar o risco.

 

Em países como a Austrália, legislações locais já obrigam janelas e sacadas a terem limitadores de abertura e dispositivos de segurança. O Brasil ainda discute a questão como se fosse opção individual.

 

Mas quantas quedas precisarão acontecer até que esse debate avance? Quantos “quase” serão tolerados até se entender que o problema é coletivo?

 

O menino de Cuiabá, por ora, se recupera. A dor no corpo é passageira, mas o impacto do episódio deveria deixar marcas permanentes na consciência coletiva.

 

Um acidente evitável não pode ser tratado como acaso. Precisa ser entendido como sintoma.

 

E o sintoma aponta para um país que ainda delega ao improviso a proteção de suas crianças.

 

O episódio não é apenas uma história de sobrevivência. É, sobretudo, um chamado à responsabilidade.

 

Talvez a verdadeira pergunta não seja como o bebê sobreviveu à queda, mas por que ele precisou sobreviver a ela.

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