Mesmo com mais de 40 mil mortos, Brasil se recusa a apoiar sessão urgente sobre massacre no Irã

A decisão do Brasil de se abster em uma votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre a repressão no Irã provocou forte repercussão diplomática e política. A sessão de emergência foi realizada na sexta-feira (23), em meio à escalada de protestos no país e ao aumento de denúncias envolvendo mortes, prisões em massa e violência estatal contra manifestantes.

A resolução em debate buscava condenar formalmente a repressão do regime iraniano e reforçar mecanismos internacionais de monitoramento, investigação e preservação de provas. O texto citava preocupações graves, como o uso de força letal, detenções arbitrárias, restrições à comunicação, censura e violações à liberdade de expressão.

Ao final da votação, 25 países se posicionaram a favor da resolução, sete votaram contra e 14 optaram pela abstenção. O Brasil integrou esse último grupo, ao lado de outras nações que preferiram não assumir um alinhamento explícito com a condenação internacional ao regime iraniano.

Embora a abstenção não represente um voto contrário, ela carrega peso político significativo. Em organismos multilaterais como a ONU, esse tipo de postura costuma ser interpretado como uma tentativa de evitar atritos diplomáticos, especialmente com países aliados ou estratégicos.

O tema ganhou ainda mais visibilidade após a CNN Brasil divulgar, neste domingo (25), uma estimativa do Centro Internacional para Direitos Humanos no Irã que aponta ao menos 43 mil mortos durante os protestos. O número, considerado alarmante, foi obtido a partir de investigações independentes, checagem de relatos e verificação de imagens.

Ao mesmo tempo, há divergências expressivas sobre o total de vítimas. Autoridades iranianas apresentam números muito inferiores, enquanto organizações independentes enfrentam enormes dificuldades para confirmar dados, devido ao forte controle de informações, bloqueio da internet e repressão interna.

Nesse contexto, a resolução da ONU buscava justamente fortalecer instrumentos de apuração internacional, criando condições para que violações de direitos humanos fossem investigadas de forma mais transparente e com maior respaldo jurídico.

Para especialistas em política internacional, apoiar esse tipo de resolução significa se alinhar a uma pressão global mais direta por responsabilização e respeito aos direitos humanos. Já a abstenção é vista como uma escolha por cautela diplomática, ainda que isso implique silêncio diante de denúncias graves.

O governo brasileiro, historicamente, defende os princípios da não intervenção e da soberania nacional. Essa linha orienta muitas decisões do Itamaraty, especialmente em casos que envolvem regimes aliados ou países do chamado Sul Global.

Críticos, porém, apontam um contraste entre discurso e prática. Argumentam que a defesa dos direitos humanos, prevista inclusive na Constituição brasileira, deveria se traduzir em posicionamentos mais firmes quando há indícios consistentes de repressão em larga escala.

No cenário interno, a abstenção alimentou críticas da oposição, que acusa o governo de adotar seletividade moral em sua política externa, sendo mais rigoroso com alguns países e mais leniente com outros, conforme afinidades ideológicas.

Organizações da sociedade civil também manifestaram preocupação, afirmando que a neutralidade, em situações extremas, pode acabar favorecendo regimes acusados de abusos, ao enfraquecer a pressão internacional por mudanças.

No plano diplomático, a decisão brasileira mantém a coerência com uma postura tradicional de mediação e diálogo, mas levanta questionamentos sobre seus limites diante de números tão elevados e denúncias tão graves.

Ao final, o episódio evidencia um dilema recorrente da política externa brasileira: equilibrar interesses estratégicos, princípios diplomáticos e compromissos com os direitos humanos. Diante do agravamento da crise no Irã, a escolha pela abstenção segue sendo vista, por muitos, como um silêncio incômodo em um momento de forte cobrança internacional por posicionamento claro e responsabilização.

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