Mendonça afirma que os lucros de sua empresa irão para o dízimo e ações sociais

A Fé de Mendonça e a Sombra do Banco Master no STFA Justiça brasileira acaba de ganhar um novo capítulo onde a liturgia religiosa e os autos judiciais se cruzam de forma inédita.

O ministro André Mendonça, recém-sorteado relator do explosivo “Caso Master”, decidiu vir a público para falar não de leis, mas de dízimos e propósitos espirituais.

O anúncio de que 90% dos lucros de sua empresa, o Instituto Iter, serão destinados a obras sociais e 10% ao dízimo, foi feito em um púlpito.

Para Mendonça, o lucro é uma “consagração”; para o observador da cena pública, é um posicionamento de imagem em um momento de alta voltagem.

A coincidência temporal é o que move os ponteiros do ceticismo: a revelação sobre o destino do seu dinheiro privado ocorreu apenas um dia antes de ele assumir o caso que derrubou Dias Toffoli.

O “Caso Master” não é uma disputa qualquer; é uma crise institucional aberta por um relatório da Polícia Federal.

Toffoli saiu sob pressão após seu nome aparecer em mensagens de Daniel Vorcaro, dono do banco investigado.

Nesse cenário, a fala de Mendonça funciona como um escudo moral.

Ao se apresentar como alguém que renuncia ao lucro pessoal em nome de causas sociais e da fé, ele tenta blindar sua relatoria contra as suspeitas que fritaram seu antecessor.

Mas o “e daí?” desta questão vai além da caridade.

O fato de um ministro da Suprema Corte manter uma empresa privada de educação e formação levanta debates sobre os limites éticos da atuação de magistrados fora do tribunal.

O lucro pode até ser doado, mas o Instituto Iter continua sendo um ativo de influência.

Em Brasília, onde a moralidade é frequentemente usada como peça de xadrez, a “consagração do altar” pode ser lida tanto como um gesto de fé quanto como uma estratégia de relações públicas.

Mendonça ocupa um lugar duplo: é o juiz constitucional e o pastor presbiteriano. Essa dualidade agora será testada no fogo do Caso Master, onde interesses bilionários e investigações da PF estão em jogo.

A pressão sobre o novo relator será imensa.

Se Toffoli caiu por “menções” em um celular, Mendonça assume sabendo que cada passo seu será escrutinado sob a lente da isenção absoluta.

O gesto de doar o lucro é nobre no campo pessoal, mas, no campo jurídico, o que garantirá a legitimidade da relatoria não será o dízimo, mas o rigor técnico e a distância entre o púlpito e a caneta.

A transparência de Mendonça sobre suas finanças é um passo raro no STF, mas também coloca um holofote sobre suas atividades empresariais que, até então, passavam despercebidas pelo grande público.

A crise institucional que levou Toffoli a deixar o caso deixou uma cicatriz de desconfiança na Corte. Mendonça agora tem a tarefa de costurar essa ferida sem deixar que a sua vida privada se torne um novo foco de incêndio.

O Brasil assiste a um Supremo que, cada vez mais, precisa se explicar para além dos votos.

Quando um ministro fala em “consagrar o lucro”, ele está chamando para si uma responsabilidade ética que o tribunal, como instituição laica, nem sempre sabe como processar.

A fé é um direito individual, mas a justiça é um dever público.

O sucesso de Mendonça nessa relatoria dependerá de ele conseguir separar o “sonho e propósito” da empresa da realidade fria dos relatórios da Polícia Federal.

A pergunta final que fica para o STF e para a sociedade é: o compromisso moral anunciado em um altar é suficiente para garantir a imparcialidade necessária em um caso que já derrubou um ministro?

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