Quantos bilhões cabem em uma facção? A resposta, vinda de Minas Gerais, assusta: R$ 18 bilhões bloqueados em uma megaoperação que desarticulou um braço do Comando Vermelho.
O número é mais do que contábil. Ele dimensiona a força de um crime que deixou de ser apenas violência armada para se transformar em estrutura financeira.
A facção mineira não operava em becos escuros, mas em planilhas, laranjas e movimentações que imitam grandes conglomerados. O crime, nesse caso, veste terno e fala a linguagem do mercado.
A operação da Polícia Federal expõe uma contradição: enquanto o país se debate sobre déficit fiscal e cortes orçamentários, organizações criminosas movimentam cifras que rivalizam com grandes estatais.
O bloqueio bilionário não representa apenas dinheiro congelado, mas a tentativa de asfixiar uma lógica de poder baseada em liquidez, lavagem e reinvestimento.
A facção, ligada ao Comando Vermelho, mostra que o crime organizado já não se limita às fronteiras do Rio ou São Paulo. Ele se interioriza, se nacionaliza e se adapta ao terreno.
Minas, por sua posição geográfica, é corredor estratégico. O estado funciona como entroncamento de rotas, o que transforma sua criminalidade em peça-chave da engrenagem.
O mais perturbador, porém, é a sofisticação da rede. Não se trata mais de pistoleiros improvisados, mas de contadores, advogados e operadores financeiros.
É a fusão entre a violência bruta e a inteligência corporativa. A facção age como multinacional clandestina, com filiais, divisão de tarefas e plano de expansão.
O Comando Vermelho, ao permitir a conexão, amplia sua presença e dá musculatura ao braço mineiro. Não é aliança ocasional, mas estratégia de rede.
Cada real bloqueado expõe uma fragilidade do Estado: a dificuldade de monitorar fluxos que transitam por bancos, corretoras e até aplicativos de pagamento.
A operação, embora robusta, levanta uma questão incômoda: até que ponto o sistema financeiro é cúmplice — por omissão ou conveniência — dessa engrenagem?
O crime organizado não se sustenta apenas na bala. Ele sobrevive porque se infiltra onde menos se espera, alimentando economias locais e até eleições.
O impacto humano é direto. Enquanto bilhões circulam, comunidades permanecem reféns de facções que oferecem a “proteção” que o Estado falha em garantir.
A prisão de líderes e o bloqueio de ativos têm efeito imediato, mas a experiência mostra que essas estruturas se reconfiguram com velocidade.
É como cortar cabeças de uma hidra: cada golpe abre espaço para novos tentáculos, muitas vezes mais discretos e eficientes.
O que está em jogo, portanto, não é apenas desarticular uma facção. É repensar a forma como o Estado brasileiro enfrenta um inimigo que opera dentro e fora da legalidade.
Se o crime aprendeu a agir como empresa, talvez seja hora de o Estado aprender a agir como inteligência de mercado — antevendo, mapeando, corroendo os alicerces antes que cresçam.
A megaoperação mineira revela não só a força do crime, mas também sua vulnerabilidade: a dependência de dinheiro limpo.
A pergunta que fica é se teremos capacidade de transformar esse golpe pontual em política de longo prazo ou se continuaremos comemorando vitórias que o tempo se encarrega de relativizar.

