O pedido de Márcio Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, líder do Comando Vermelho, para conceder uma entrevista ao jornalista Roberto Cabrini, da TV Record, e a chegada do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), revelam o ponto de colapso entre a segurança, a mídia e a Justiça.
Não se trata apenas de um criminoso buscando palco; é o próprio crime organizado exigindo direito à voz na mais alta corte do país.
A Justiça Federal de Campo Grande negou o pedido sob o argumento de sensacionalismo e falta de interesse público. Essa decisão, no entanto, levanta a questão da censura prévia.
No contexto de uma operação policial que deixou 121 mortos — o ápice da letalidade no Rio de Janeiro — a versão do líder da facção tem, inegavelmente, um interesse público latente.
A defesa de Marcinho VP está jogando no tabuleiro da narrativa. A entrevista seria usada para fazer uma declaração política sobre a operação e, crucialmente, para defender o filho, o rapper Oruam, que teve problemas com a Justiça.
O criminoso, preso há décadas, busca usar a visibilidade para intervir na vida pública e tentar humanizar a imagem de sua família e da facção em um momento de máxima repressão.
A foto que acompanha a notícia é um contraste brutal: Marcinho VP, o líder da velha guarda, ao lado de Oruam, o rosto jovem e pop do tráfico na cultura urbana.
Essa justaposição é a chave da estratégia: conectar a autoridade histórica do CV (VP) com a popularidade e alcance da nova geração (rapper).
O STF, ao ter que analisar o caso, é forçado a arbitrar sobre o limite da liberdade de expressão em um sistema penitenciário de segurança máxima.
Permitir a entrevista pode dar um palco de propaganda perigoso a uma organização criminosa. Negá-la pode criar um precedente de censura. O dilema é complexo.
O argumento da defesa de que a reportagem não deve ter “caráter sensacionalista” é ingênuo. Qualquer entrevista com o líder de uma facção é, por natureza, um evento de alto sensacionalismo.
A verdadeira análise que o ministro Flávio Dino precisa fazer é: o que a sociedade ganha ao ouvir a versão do líder do Comando Vermelho sobre a operação e sobre a criminalidade?
É o interesse público em conhecer a estrutura de poder e a mentalidade do inimigo da ordem, ou é apenas a exposição midiática de um condenado?
O risco é o do glamourização. O entrevistado pode usar a câmera para enviar recados codificados, consolidar sua liderança e até mesmo recrutar.
A Justiça precisa pesar o direito à informação contra o dever de não colaborar com a engenharia da propaganda de uma organização que vive de subverter o Estado.
A movimentação de Marcinho VP ao STF é um símbolo: o crime organizado está atento à Justiça, à política e, sobretudo, à mídia.
O palco está montado. A decisão do STF definirá se o Judiciário brasileiro aceita ser o árbitro da voz de um dos maiores líderes do crime, transformando o cárcere em palanque.
Se a Justiça permitir, a entrevista será a vitória simbólica do crime sobre o silêncio, marcando uma nova era na guerra de narrativas do Rio de Janeiro.

