O vídeo da influenciadora natalense Jucyara Debochada não é apenas um desabafo; é um grito de guerra não intencional contra a romantização da maternidade e a invisibilidade do cuidador atípico. As lágrimas de esgotamento ao relatar a rotina de crises e agressões do filho autista, a perda da paz e o adiamento dos sonhos, revelam uma fratura social que o discurso edificante da internet insiste em ignorar.
A polarização nas reações – empatia de um lado, críticas ao “tom” sobre o filho de outro – é o ponto nevrálgico.
A reprovação moral, o julgamento de que uma mãe não deveria chorar ou se queixar publicamente da carga imposta pela criança, é a manifestação mais cruel do clichê da “mãe guerreira” que deve suportar o sofrimento em silêncio e com um sorriso estoico.
O ceticismo nos leva a questionar: por que a sociedade tolera e até incentiva a exposição de vidas perfeitas, mas se sente ofendida pela honestidade brutal do esgotamento?
A resposta é simples: o sofrimento autêntico e a falência do sistema de suporte ameaçam a narrativa cômoda de que o amor materno é suficiente para superar qualquer desafio.
A verdadeira injustiça que Jucyara expôs não é o comportamento do filho, mas a ausência de uma rede de apoio efetiva.
Quando uma mãe precisa recorrer às redes sociais, à esfera pública e à exposição da própria dor para ser vista e ouvida, isso é um sinal de que as estruturas tradicionais – família estendida, Estado, saúde pública – falharam miseravelmente.
O esgotamento materno, no contexto atípico, é uma equação perversa de demanda constante e recursos escassos. As “crises constantes” e as “agressões” são o feedback de um sistema que não oferece terapias, auxílio prático e, crucialmente, o respiro necessário para a cuidadora.
A paz e os sonhos perdidos de Jucyara são o preço não contabilizado que a sociedade impõe a quem assume a linha de frente do cuidado especial.
A crítica ao seu “tom” é, na verdade, uma tentativa de silenciar a voz que ousa quebrar a redoma de vidro da idealização. Ao invés de questionar a mãe que chora, deveríamos questionar o sistema que a fez chorar em público, na esperança desesperada de que alguém finalmente ouça o grito.
O desabafo de Jucyara deve ser lido como um documento social sobre o abandono institucional e a pressão ética que recai sobre as mulheres-cuidadoras.
A maternidade, especialmente a atípica, quando desprovida de suporte, é uma tarefa que corrói a identidade individual.
É imperativo que a discussão se mova do julgamento moral da mãe para a exigência de políticas públicas que ofereçam acompanhamento psicológico, terapias intensivas para a criança e, sobretudo, alívio prático para quem cuida sozinho.
Eu posso pesquisar sobre programas federais ou estaduais de apoio e descanso para cuidadores de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil.

