Como pedir paz enquanto se exibe poder bélico? Essa contradição define a nova comunicação de Maduro com os EUA.
Em Caracas, Maduro fez um apelo direto aos norte-americanos: “No crazy war, please”.
Ele disse que a CIA recebeu autorização para operações encobertas na Venezuela — o que o governo entende como ameaça de invasão.
A frase mistura humor (ele se refere ao “inglês tarzaneado”) e tensão diplomática
Por que um presidente que afirma querer paz anuncia, ao mesmo tempo, mais exercícios militares na costa caribenha?
Porque, para Maduro, o apelo “paz” serve como moldura para reforçar soberania. Ele acusa Washington de cerco e mudança de regime motivada por petróleo.
A retórica revela um arranjo que convoca o inimigo (os EUA) e simultaneamente mobiliza o interno (os venezuelanos) sob o signo da ameaça externa.
Em vez de simples diplomacia, o gesto funciona como espetáculo: o apelo “não à guerra louca” não apaga o fato de que a “guerra” já é narrada como iminente.
Do lado dos EUA, a autorização para operações encobertas marca uma escalada que mistura narcóticos, mudança de regime e presença militar na vizinhança.
Essa ambiguidade permite a Maduro usar a paz como argumento de autoridade (“somos atacados, portanto resistimos”).
E permite aos EUA agir sob a bandeira da guerra contra o tráfico, mas com implicações geopolíticas maiores — sobretudo no contexto petrolífero venezuelano.
O apelo em inglês — meio brincado, meio sério — é simbólico.
Mostra que Maduro quer dialogar com o sistema de poder global, mas em sua própria linguagem: a “língua tarzaneada”.
É como se dissesse: “vou ao seu idioma, mas me mantenho no meu território”.
Essa técnica faz lembrar uma celadeira diplomática clássica: a paz invocada torna-se instrumento de resistência e mobilização, não apenas meta isolada.
Qual é o “e daí?” dessa retórica?
Para os venezuelanos significa que o Estado reforça controle interno (com exercício militar, acusação de cerco, mobilização popular).
Para os EUA e o hemisfério latino-americano significa que qualquer operação sob rótulo antidrogas carrega risco real de escalada militar e desafio à soberania nacional.
Ou seja: a paz virou inclusive um dispositivo de poder, não só de reconciliação.
Por fim, o apelo de Maduro lança uma pergunta maior: quando a paz é proclamada em meio a manobras militares, ela é sinal de acomodação ou de preparação?
Se o palco da retórica já é de guerra, a paz pedida pode beneficiar quem controla o roteiro.
Maduro está pedindo para parar a “guerra louca” — mas a guerra, de fato, talvez esteja apenas mudando de formato.

