A declaração do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Donald Trump, de que irá “agradecer só parcialmente” pelo corte de tarifas e que “Não é tudo que eu quero”, é um lance de diplomacia cética que busca desarmar a retórica de concessão e afirmar a soberania das demandas brasileiras.
Esse diálogo não é um mero protocolo, mas a exposição fria do cálculo geopolítico que rege a relação comercial entre Brasília e Washington.
O ceticismo nos impõe a seguinte questão: Por que Lula opta pela meia gratidão?
Porque aceitar um corte de tarifas como uma benevolência americana seria ceder a narrativa de que o Brasil está apenas recebendo favores.
Ao ressalvar que “não é tudo que eu quero”, Lula reposiciona o Brasil como um parceiro comercial exigente que busca a simetria e a equidade nas trocas, e não apenas alívio fiscal pontual.
Essa postura evita o clichê da submissão diplomática. Lula sinaliza que os interesses brasileiros vão além da medida tarifária específica e incluem uma agenda mais ampla que abrange o acesso facilitado a outros mercados, a transferência de tecnologia e a discussão de barreiras não tarifárias.
O “agradecer só parcialmente” é a forma de comunicar que a negociação está em curso, e que o Brasil ainda detém poder de barganha.
O “e daí” para a economia é a pressão por mais. Ao ser publicamente comedido no agradecimento, Lula mantém a pressão sobre o lado americano para que se avance em temas mais complexos e estruturais que afetam a competitividade brasileira.
É um lembrete de que o Brasil é um ator global que busca paridade de tratamento, e não apenas isenções seletivas.
A troca de palavras entre os dois líderes é um microcosmo de suas personalidades políticas: Trump, focado na transação e na concessão pontual; Lula, focado na reafirmação da dignidade nacional e na busca por uma vitória que seja completa, e não apenas parcial.
A gratidão comedida é o preço da autonomia em política externa.

