O que, afinal, define uma musa de escola de samba: o corpo, o carisma ou a capacidade de representar um território que não se veste apenas de plumas?
A apresentação de Lívia Andrade como musa do Salgueiro parece, à primeira vista, mais um capítulo previsível do carnaval-espetáculo. Mas o anúncio carrega camadas que merecem leitura menos apressada.
O Salgueiro não é uma passarela qualquer. É uma instituição com identidade forte, memória política e estética própria, forjada no Morro do Salgueiro e lapidada ao longo de décadas.
Ser musa ali não é apenas “desfilar bem”. É assumir um papel simbólico dentro de uma narrativa coletiva.
Lívia chega com capital midiático de sobra. É conhecida, tem presença, domina a linguagem do entretenimento e sabe ocupar o espaço que lhe é dado.
Mas o carnaval, especialmente o das grandes escolas, cobra algo além da fama: cobra entrega.
Nos últimos anos, o Salgueiro tem sinalizado um movimento interessante. Menos aposta no óbvio, mais cuidado com a mensagem que seus corpos comunicam na avenida.
Nesse contexto, a escolha de Lívia pode ser lida como um teste de equilíbrio entre visibilidade e pertencimento.
Ela não vem da comunidade, mas também não chega como um corpo estranho. Há um esforço claro de aproximação, de respeito ao chão simbólico que pisa.
Isso importa. Porque o carnaval já cansou de figuras que usam a escola como vitrine pessoal, sem qualquer vínculo real.
O cargo de musa, muitas vezes visto como decorativo, é na verdade um termômetro. Revela se a escola quer apenas holofote ou se pretende dialogar com novos públicos sem diluir sua essência.
Lívia Andrade, por sua vez, entra numa arena que não perdoa improvisos. A Sapucaí cobra verdade — mesmo quando tudo parece fantasia.
Cada gesto, cada ensaio, cada silêncio fora da avenida também comunica algo.
Há uma expectativa implícita: que ela entenda o Salgueiro não como cenário, mas como sujeito.
Se conseguir, a parceria se fortalece. Se não, vira apenas mais um episódio rapidamente esquecido no noticiário carnavalesco.
O carnaval de 2025 promete ser um campo de disputa simbólica intenso. Tradição e mercado, raiz e espetáculo, pertencimento e audiência.
A presença de Lívia Andrade se insere exatamente nesse cruzamento.
Não é um problema em si. É um desafio.
Porque no Salgueiro, mais do que brilhar, é preciso sustentar o brilho com respeito, escuta e consciência histórica.
E talvez essa seja a pergunta que ficará após os aplausos: Lívia será apenas mais um rosto bonito na avenida — ou conseguirá vestir, de fato, a complexidade de uma escola que nunca foi só carnaval?

