A atuação de parlamentares na organização de atos públicos voltou ao centro do debate político após uma representação protocolada na Procuradoria-Geral da República (PGR) envolvendo um deputado federal. O episódio reacendeu discussões sobre responsabilidade, segurança e limites da atuação política fora do Parlamento.
O líder do PT na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (RJ), ao lado do deputado Rogério Correia (MG), formalizou um pedido de apuração contra o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A iniciativa questiona a conduta do parlamentar na organização de uma caminhada realizada recentemente em Brasília.
Na representação encaminhada à PGR, os parlamentares petistas classificam o ato como uma “irresponsabilidade”. Segundo eles, a manifestação teria ocorrido sem a devida comunicação prévia aos órgãos competentes, o que teria dificultado o planejamento de segurança e a atuação preventiva das autoridades.
Um dos principais pontos levantados no documento refere-se à ocupação de trechos da rodovia BR-040 durante a caminhada. De acordo com os deputados, a utilização da via teria ocorrido de forma irregular, colocando em risco tanto os participantes quanto motoristas que transitavam pelo local.
A representação destaca que eventos desse porte exigem planejamento detalhado e autorização prévia, justamente para minimizar riscos e garantir a integridade física dos envolvidos. Na avaliação dos autores do pedido, essas etapas não teriam sido cumpridas adequadamente.
Outro aspecto central do questionamento envolve as condições climáticas no dia da manifestação. Segundo o texto enviado à PGR, havia alertas meteorológicos prévios indicando a possibilidade de chuvas intensas, ventos fortes e incidência de raios na região.
Apesar dos avisos, a etapa final do ato foi mantida na Praça do Cruzeiro, local aberto e considerado vulnerável em situações de tempestade. Para os parlamentares do PT, a decisão demonstrou falta de cautela por parte da organização.
Durante a manifestação, realizada no último domingo (25/1), diversas pessoas foram atingidas por descargas elétricas. O episódio gerou pânico entre os presentes e exigiu a atuação de equipes de resgate.
Quatro manifestantes precisaram ser encaminhados a unidades de saúde para atendimento médico. Posteriormente, foi informado que todos receberam alta hospitalar, sem registro de óbitos.
Mesmo assim, os autores da representação argumentam que o ocorrido poderia ter sido evitado com medidas preventivas mais rigorosas, como o adiamento do ato ou a mudança do local de encerramento.
O documento também aponta que, após o incidente, não teriam sido adotadas providências imediatas para reduzir os danos ou orientar de forma eficaz a dispersão do público presente no local.
Além disso, os deputados criticam a suposta ausência de manifestações públicas de solidariedade imediata às vítimas por parte da organização do evento, o que, segundo eles, agravaria a avaliação sobre a condução do ato.
Para Lindbergh Farias (RJ) e Rogério Correia (MG), a situação exige apuração técnica e imparcial, a fim de esclarecer se houve negligência ou descumprimento de normas legais.
Diante desse entendimento, os parlamentares solicitaram que a PGR instaure um procedimento investigatório no âmbito do Ministério Público Federal. O pedido inclui a possibilidade de acionamento da Polícia Federal para aprofundar a apuração dos fatos.
Entre as medidas sugeridas está a oitiva dos organizadores e coordenadores do evento, com o objetivo de identificar quem tomou as decisões relacionadas ao trajeto, ao local de encerramento e à manutenção do ato diante dos alertas climáticos.
A representação também busca verificar se houve responsabilidade direta ou indireta pelos danos físicos sofridos pelos manifestantes atingidos pelas descargas elétricas.
O caso provocou repercussão no meio político e reacendeu debates sobre a organização de manifestações públicas por agentes eleitos, especialmente quando envolvem grandes aglomerações.
Especialistas em direito público observam que parlamentares, ao liderarem ou promoverem atos dessa natureza, podem ser chamados a prestar esclarecimentos caso haja indícios de omissão ou imprudência.
Por outro lado, aliados do deputado citado sustentam que manifestações fazem parte do exercício democrático e que eventuais incidentes devem ser analisados com cautela, levando em conta múltiplos fatores.
A Procuradoria-Geral da República deverá avaliar o conteúdo da representação e decidir se há elementos suficientes para a abertura de investigação formal.
Enquanto isso, o episódio segue alimentando discussões sobre responsabilidade política, segurança em eventos públicos e os limites entre mobilização popular e dever institucional de cautela.

