Como um dos criminosos mais procurados de Mato Grosso pode passar a tarde tranquilamente em uma praia do Rio de Janeiro?
A prisão de Ederson Xavier de Lima, conhecido como Boré, não é apenas mais uma captura de líder do Comando Vermelho. É o retrato da elasticidade do crime organizado no país.
Condenado a 18 anos por tráfico de drogas, Boré acumulava um histórico de extorsão, receptação e participação em organização criminosa. Um currículo que, paradoxalmente, parecia não pesar fora do radar imediato da polícia.
O detalhe que chama atenção não é apenas a prisão em si, mas o cenário: um domingo ensolarado, à beira-mar, em Niterói. A normalidade do ócio contrasta com a gravidade dos crimes.
Essa cena expõe um paradoxo brasileiro: figuras centrais do crime conseguem se infiltrar em espaços comuns, dissolvendo-se no cotidiano das grandes cidades.
A captura só foi possível por troca de informações entre a Polícia Civil de Mato Grosso e a do Rio de Janeiro. A cooperação interestadual funcionou — mas de forma reativa, não preventiva.
Aqui emerge a primeira reflexão: o crime não respeita fronteiras estaduais, mas o sistema de segurança pública ainda é fragmentado e burocrático.
Boré não estava escondido em um cativeiro ou num ponto remoto da floresta. Estava à vista. Isso sugere menos audácia e mais confiança na falha estrutural da vigilância.
A praia de Niterói, nesse caso, é metáfora. É o espaço onde se cruza o ordinário e o ilegal, onde o criminoso circula como qualquer cidadão, testando os limites do Estado.
O fato de a prisão ser noticiada como “operação de sucesso” revela outra camada: celebramos a exceção porque a regra ainda é a impunidade.
É preciso perguntar: quantos outros Borés seguem vivendo normalmente em praias, condomínios ou fazendas pelo país?
O episódio também joga luz sobre a força simbólica do Comando Vermelho. Mesmo longe de sua base histórica, no Rio, a facção mantém ramificações sólidas em estados como Mato Grosso.
Essa expansão se sustenta em redes logísticas do tráfico, mas também em relações políticas e econômicas subterrâneas, raramente investigadas a fundo.
Boré, nesse sentido, é menos um indivíduo e mais um nó dentro de uma teia que se refaz a cada prisão.
O que se quebra com sua captura é um elo, mas não o sistema. O crime organizado brasileiro já provou ser resiliente, adaptando-se rapidamente à ausência de líderes.
Talvez por isso, mais relevante que prender Boré seja compreender como ele pôde viver tanto tempo em liberdade, sem chamar atenção.
O caso mostra que o desafio não é localizar criminosos, mas desmontar as estruturas que lhes garantem proteção, renda e anonimato.
Enquanto o Estado continuar a agir como bombeiro, apagando incêndios pontuais, o crime seguirá operando como engenheiro, planejando a próxima obra.
A imagem de Boré na praia não deve ser lida como anedota, mas como diagnóstico. Ela revela a proximidade desconfortável entre o crime organizado e a vida comum no Brasil urbano.
A pergunta que fica é incômoda: estamos diante de um avanço do Estado ou apenas de mais um intervalo na rotina de um sistema que segue, intacto, nas sombras?

