Há algo de profundamente doente na forma como parte do debate público se expressa nas redes sociais. Quando até uma criança de cinco anos se torna alvo de ódio, não estamos mais diante apenas de “opiniões inflamadas” — mas de um sintoma social.
A condenação do professor Marcos Dantas, da UFRJ, por atacar a filha de Roberto Justus e Ana Paula Siebert, é um marco jurídico, mas sobretudo um espelho de um fenômeno mais amplo: o esgarçamento da empatia na esfera digital.
O caso, que parece pontual, carrega o peso simbólico de uma era em que a indignação virou espetáculo e a crueldade, uma forma de engajamento. Um homem com carreira acadêmica consolidada escolheu transformar o espaço público em arena de execuções verbais — evocando a guilhotina como metáfora para o desconforto com o luxo alheio.
Há aqui uma ironia trágica: o símbolo máximo do Iluminismo, a guilhotina da Revolução Francesa, renasce não como instrumento político de justiça, mas como arma retórica de ressentimento digital.
O ataque não foi apenas contra a ostentação de uma bolsa de R$ 14 mil. Foi contra a própria ideia de infância preservada — algo que, nas redes, parece não existir mais.
A Justiça reagiu, condenando o professor a indenizar os pais em R$ 50 mil cada. Uma resposta jurídica necessária, mas incapaz de reparar o dano simbólico: o de normalizar o ódio como linguagem pública.
É tentador ler o episódio como um excesso individual. No entanto, ele se insere num padrão mais profundo — a erosão do limite entre crítica e violência. A crítica social legítima se dissolve quando é movida pelo prazer da ofensa.
O ambiente digital potencializa esse impulso. O anonimato relativo, a busca por curtidas e a velocidade das reações criam um ecossistema em que a crueldade é recompensada. Não há espaço para pausa, reflexão ou empatia — apenas para o impacto.
Mais perturbador ainda é o fato de que o autor do ataque seja um professor. Aquele cuja função social é ensinar, mediar o conhecimento e cultivar o pensamento crítico. A violência simbólica parte, nesse caso, de quem deveria zelar pela racionalidade.
Isso revela um paradoxo contemporâneo: quanto mais informação circula, menos consciência parece mediar seu uso. O saber não imuniza contra o ódio — às vezes, apenas o justifica com palavras mais sofisticadas.
O episódio reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão. Criticar a desigualdade é um direito; incitar violência contra uma criança é um colapso ético. A fronteira entre um e outro precisa ser mais nítida.
Há um componente cultural que não pode ser ignorado. No Brasil, o ódio ao “rico” se mistura a uma raiva difusa contra símbolos de privilégio — mesmo quando esses símbolos estão nas mãos de uma criança.
É a moralidade seletiva das redes: condena-se o luxo, mas idolatra-se o influencer; ataca-se o supérfluo, mas vive-se da aparência. O problema não é apenas econômico — é estético e emocional.
A decisão judicial é um gesto civilizatório num espaço que parece ter desaprendido o que significa civilidade. Mas ela é também um alerta: a justiça pode punir o ato, não a cultura que o alimenta.
Se o caso Vicky Justus serve de exemplo, é porque escancara o que já sabemos, mas fingimos ignorar — que o discurso digital se tornou um território sem freios, onde até crianças viram alvos e adultos se orgulham de suas próprias ofensas.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a honra de uma família, mas o tecido moral de uma sociedade que normaliza o linchamento virtual.
Enquanto o ódio render aplausos, likes e manchetes, o tribunal das redes continuará julgando antes da Justiça — e condenando sem remorso.
A pergunta que fica é: quanto de nós ainda sobra quando a indignação vira espetáculo e a empatia, fraqueza?
Talvez o futuro da convivência digital dependa justamente disso — de reaprender a ser humano antes de ser usuário.

