Como um diagnóstico tardio pode alterar não apenas uma trajetória pessoal, mas a forma como uma instituição inteira enxerga suas próprias estruturas?
A ascensão do juiz e professor Alexandre Morais da Rosa ao cargo de desembargador do TJ/SC é mais do que uma promoção por antiguidade — é um marcador simbólico num sistema acostumado a operar sob padrões rígidos de comportamento.
Com 27 anos de carreira, Alexandre construiu reputação sólida passando por comarcas tão distintas quanto São José, Imbituba, Criciúma e Joinville.
Sua experiência atravessa praticamente todas as bordas do mapa catarinense, o que lhe garantiu um olhar plural sobre realidades sociais, econômicas e humanas.
Mas foi apenas em 2021, já adulto, que recebeu o diagnóstico de TEA nível 1 — uma informação que não o redefiniu, mas o reorganizou internamente.
O reconhecimento tardio funcionou como um mapa: permitiu entender ruídos, ajustar rotinas, reposicionar energia em atividades que antes exigiam esforço desproporcional.
Nas entrevistas que concedeu ao longo dos últimos anos, Alexandre narrou esse processo sem dramatização — apenas com a precisão intelectual que marca seu estilo.
Disse que passou a compreender melhor as dificuldades nas interações, especialmente em tarefas colaborativas, e que adotou estratégias concretas para lidar com elas.
Entre essas estratégias está o uso do cordão de identificação de deficiência não visível — um gesto simples, mas profundamente significativo num ambiente em que “não demonstrar” sempre foi regra tácita.
Ao usar o cordão, ele afirma não apenas sua condição, mas também a necessidade de o sistema reconhecer o que não se vê.
Essa transparência confronta a cultura jurídica tradicional, onde muitas vezes se espera que o sujeito seja imune a falhas, emoções e vulnerabilidades.
E ao contrário do que se imagina, não é fragilidade — é método. É inteligência emocional aplicada à vida institucional.
Sua trajetória acadêmica reforça esse rigor: graduação e mestrado pela UFSC, doutorado pela UFPR, produções jurídicas que alimentam debates contemporâneos, e dedicação ao ensino universitário.
É raro que alguém consiga transitar com tanta desenvoltura entre a prática judicial e a teoria crítica do Direito.
O ingresso na 3ª Turma Recursal em 2019, seguido da atuação como juiz de 2º grau em 2023, já indicava que sua promoção era apenas questão de tempo.
Mas a posse como desembargador, às vésperas de 2025 terminar, oferece uma narrativa que ultrapassa o fato administrativo.
Ela toca num ponto sensível: quem pode ocupar espaços de poder? Quem cabe no molde? E por que continuamos insistindo em moldes?
A presença de Alexandre no tribunal não responde todas essas perguntas — mas obriga a fazê-las.
Porque, no fim, sua conquista não é apenas individual: é um lembrete de que instituições públicas só se fortalecem quando acolhem complexidades humanas, e não quando tentam apagá-las.
E talvez aí esteja o verdadeiro impacto de sua posse: mostrar que há lugar, no Direito, para quem pensa diferente, sente diferente, opera diferente — e justamente por isso enxerga o que tantos não veem.

