Jovem de 23 anos intoxicado por metanol fica cego e sem conseguir andar

Poderia o ato de celebrar, um brinde descompromissado na balada, ser, na verdade, um sorteio macabro com a própria vida?

É a pergunta que a tragédia de Leonardo, e de tantos outros, impõe à nossa sociedade anestesiada.

Sua recuperação, um milagre tênue após 33 dias de internação, não apaga o custo: dez quilos a menos, debilitação física e, o mais cruel, a cegueira irreversível.

O metanol não é apenas um veneno; é um cavalo de Troia químico, incolor e inodoro, que mimetiza a embriaguez comum.

O álcool metílico se disfarça. Mas ao ser metabolizado pelo fígado, ele se converte em ácido fórmico, um ácido implacável.

Essa é a substância que, literalmente, queima o nervo óptico e destrói o tecido cerebral.

O prontuário de Leonardo é um roteiro do desastre. Visão turva, ataxia, náuseas e vômitos.

Sintomas que o público leigo, no calor do momento, confunde com uma ressaca brutal ou um exagero.

O diagnóstico de metanol é, em si, um atestado de falha sistêmica.

A suspeita médica surge quando os sinais neurológicos e visuais escalam de forma desproporcional ao álcool etílico ingerido.

A ressonância magnética, com suas lesões cerebrais compatíveis, selou o veredito.

Foi necessária a intubação e a hemodiálise, um esforço desesperado para filtrar o veneno do sangue.

Mas a toxicidade avançada já cobrava seu preço.

A piora hemodinâmica, a taquicardia: o coração de Leonardo lutava para bombear o sangue alterado.

Os médicos, então, induziram o coma. Uma pausa forçada contra um ataque químico que já era devastador.

A história de Leonardo não é um caso isolado de azar. É um sintoma de uma economia subterrânea e criminosa.

O metanol é um álcool industrial, drasticamente mais barato que o etanol de consumo.

Sua presença em destilados é a prova do crime: adulteração visando lucro máximo, a qualquer custo humano.

Estamos falando de uma falência tríplice: do controle sanitário, da fiscalização de bares e baladas e, crucialmente, da rastreabilidade da cadeia de bebidas.

Como uma substância industrial altamente tóxica migra com tanta facilidade para a prateleira de um bar?

O crime organizado enxerga na sede de consumo e na busca por preço baixo a brecha perfeita.

O antídoto, o fomepizol, é de difícil acesso no país, uma ironia cruel que ilustra a despriorização do risco.

Nosso ceticismo deve ir além da máfia dos destilados. Devemos questionar o sistema que permite que isso se repita.

A comemoração de Leonardo, por conseguir sentar na cama, é tocante. É a vitória íntima sobre o flagelo químico.

Mas a sociedade continua de olhos vendados. O ‘e daí?’ dessa tragédia é a permanência do risco.

Até que ponto o leitor, o consumidor, está disposto a trocar a segurança pela economia de poucos reais?

O metanol é o espelho de uma vulnerabilidade que não deveria existir na vida noturna urbana.

A cegueira de Leonardo, e as vidas ceifadas, são o custo invisível de um sistema que falhou em proteger o cidadão de um veneno óbvio, escondido na garrafa errada.

A única certeza que fica é que, na próxima balada, o perigo estará lá, à espreita, disfarçado de etanol, esperando o brinde do desavisado. E isso é inaceitável.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Câmara aprova projeto que impede campanhas contra casamento infantil

Vereadora do PSOL diz que tr*ficant3s são”trabalhadores megaexplorados”