O artista Oruam, nascido Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, foi alvo de nova ação das autoridades que volta a colocar em foco sua conduta pública e, simultaneamente, reacende o debate sobre influência, intimidação e criminalidade no cenário artístico brasileiro. A Justiça do Rio de Janeiro determinou sua prisão preventiva após indiciamento por diversos crimes, medida que lança luz sobre a postura adotada pelo rapper diante de agentes do Estado e a repercussão que isso provoca na sociedade.
Segundo comunicado oficial da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a decisão se baseia em indícios de associação ao tráfico de drogas, resistência, desacato, ameaça, dano ao patrimônio e lesão corporal. O rapaz é filho de Marcinho VP, apontado como líder da facção Comando Vermelho, circunstância que acrescenta complexidade emocional e simbólica à investigação.
Durante a ocorrência que motivou o mandado, agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) executavam diligência para cumprimento de mandado de busca e apreensão em residencial localizada no bairro do Joá, zona oeste da capital fluminense. Na ocasião, um adolescente, apontado como segurança do traficante Edgar Alves de Andrade (“Doca”), foi abordado, e aparelhos eletrônicos foram apreendidos.
Foi relatado que, no momento da intervenção, Oruam teria incitado hostilidades contra os policiais, inclusive afirmando sua filiação ao pai como forma de intimidação: “Não vão me pegar”, teria declarado. Ele e outros indivíduos deixaram o local antes de serem detidos, e o episódio foi divulgado em vídeo nas redes sociais, registrando aplausos e fogos.
Em perfil público, um internauta comentou a postura adotada por Oruam durante essa crise institucional: “Esse garoto não para! Viu que foi preso. Podendo ficar tranquilo. Não sei que tanto ódio esse menino sente”. A fala expressa o desconforto e a perplexidade que parte da sociedade manifesta diante de comportamentos que misturam celebridade, crime e espetáculo.
O uso de redes sociais por Oruam para registrar momentos de tensão com a polícia reforça a discussão sobre autoperformance, imagem pública e os limites da provocação artística. Algumas investigações apontam que o rapper pode ter atuado com motivação midiática — por exemplo, quando foi detido em fevereiro de 2025 por dirigir de forma perigosa e, apenas horas depois, anunciou novo álbum.
Sob o prisma jurídico, a decretação da prisão preventiva atende aos requisitos previstos no Código de Processo Penal, uma vez que há prova da materialidade, indícios de autoria e perigo gerado pela permanência da liberdade do acusado. O despacho enfatiza a necessidade de garantia da ordem pública, da conveniência da instrução criminal e da aplicação da lei penal.
Do ponto de vista social, a ocorrência reacende o debate sobre a responsabilidade dos artistas que atuam em ambientes permeados por violência e crime organizado. A filiação familiar de Oruam, ambiente de origem em contextos periféricos do Rio de Janeiro e a trajetória musical — marcada pela estética ligada ao universo urbano — complicam a linha entre expressão artística e promoção de atitudes que podem transgredir normas sociais.
Ainda que produtos culturais e narrativas periféricas carreguem valor estético, críticos apontam para o risco de glamurizar figuras que operam à margem da lei ou que utilizam símbolos de intimidação. No caso em tela, a frase “Não vão me pegar” e a filmagem da ocasião projetam uma imagem de impunidade que suscita desconforto em parte da opinião pública.
As autoridades, por sua vez, destacam que o sistema de Justiça não pode ser comprometido por atos de repressão midiática ou espetáculo, razão pela qual a operação se respaldou em investigação discreta. O adolescente abordado, por exemplo, era alvo de monitoramento da DRE por suposto vínculo com o narcotráfico.
Do lado artístico, Oruam construiu carreira em meio à efervescência da cultura do funk e do trap no Rio de Janeiro, com lançamento do álbum “Liberdade” em fevereiro de 2025. A obra convive com polêmicas sobre financiamento público de shows e propostas de lei — apelidadas de “lei anti-Oruam” — que visam vetar apoio institucional a artistas que façam apologia ao crime.
Em entrevista após sua entrega à polícia, Oruam afirmou: “Não sou bandido”. A declaração traz à tona a tensão entre identidade artística e acusação criminal. A defesa ainda não emitiu posicionamento público completo até o momento em que esta matéria foi produzida.
Analistas de segurança pública ressaltam que casos como esse são um desafio para o Estado democrático de direito, pois envolvem quebras de normas, apelo midiático e o uso da celebridade como escudo simbólico. Aquelas situações põem em xeque a eficácia da repressão e a percepção social de que “alguns não serão alcançados”.
Já parte do público, como o autor da frase acima, demonstra exaustão com o comportamento repetitivo e com a sensação de que há um ciclo de impunidade. A frase “Podendo ficar tranquilo. Não sei que tanto ódio esse menino sente” reflete esse sentimento de cansaço diante de figuras públicas que parecem operar acima das consequências. É um retrato da percepção de que o conflito entre arte, provocação e crime se tornou rotina.
Sob efeito simbólico, a prisão de Oruam tem implicações para o mercado musical e para o debate sobre liberdade artística versus responsabilidade social. Produtores e patrocinadores acompanham atentamente o desenrolar, pois a linha entre marketing agressivo e transgressão legal parece se afinar cada vez mais.
Em meio à conjuntura, surge a pergunta sobre qual será o impacto na carreira do artista. Será que a medida judicial representa um ponto de virada ou apenas mais um capítulo de uma trajetória que já está entrelaçada a controvérsias? Há indícios de que o episódio será pouco digerido pelas instituições culturais, que terão de escolher entre distanciar-se ou absorver a controvérsia como combustível de atenção midiática.
Em paralelo, a sociedade discute se a resposta estatal — no âmbito criminal, parlamentar ou cultural — é suficientemente firme para tratar casos que envolvem artistas com apelo de massa e origem em contextos vulneráveis. A interseção entre crime organizado, música popular e visibilidade pública demanda respostas que vão além da simples repressão, envolvendo educação, cultura e inclusão social.
Por fim, a postura de Oruam — marcada por desafio explícito à autoridade e visibilidade amplificada — se apresenta como síntese de um momento de tensão entre reconhecimento, provocação e legalidade. O episódio sublinha que o caminho do artista, quando vinculado a narrativas de poder e resistência, nem sempre se libra das consequências institucionais. Resta saber se esse será um momento de inflexão ou mais um ciclo repetido no intrincado cenário da cultura, crime e mídia no Brasil.

