O voo livre no Rio de Janeiro é uma das imagens mais icônicas do Brasil. Ver as asas coloridas cruzando o céu de São Conrado, entre o verde do morro e o azul do oceano, é a definição visual de liberdade.
No entanto, a queda de uma asa-delta que resultou na morte de um instrutor e de uma turista americana neste domingo (22/2) transforma o cartão-postal em uma cena de luto e levanta questões urgentes.
O que deveria ser a realização de um sonho de férias para a estrangeira terminou em um impacto fatal contra o mar, expondo a fragilidade de uma atividade que vive no limite entre o esporte e o risco extremo.
O instrutor era um profissional experiente, o que torna o acidente ainda mais perturbador. Quando quem domina a técnica falha, a confiança de todo o setor é abalada.
A investigação agora terá que se debruçar sobre dois pontos fundamentais: falha mecânica ou erro humano. Um cabo que se rompe ou um ajuste de segurança negligenciado podem ser a diferença entre o pouso perfeito e o desastre.
O voo livre não permite segundas chances. Diferente de um avião, a asa-delta depende da estrutura física e da leitura perfeita das correntes de ar pelo piloto.
Muitas vezes, a pressão comercial para realizar o maior número possível de saltos por dia pode levar a uma pressa perigosa na verificação dos equipamentos.
As autoridades e a associação de voo livre precisam responder se os protocolos de manutenção estão sendo seguidos com o rigor que a gravidade exige.
Para a turista americana, o Rio de Janeiro ofereceu o seu cenário mais belo, mas não conseguiu garantir a segurança básica prometida pelo serviço contratado.
Esse tipo de tragédia causa um dano imenso à imagem do turismo brasileiro no exterior, reforçando a ideia de que somos um destino de “aventura sem regras”.
O mar de São Conrado, que geralmente é o local de celebração após o pouso na areia, tornou-se o palco de uma operação de resgate dramática e, infelizmente, tardia.
O “e daí?” desse acidente é um alerta para todos que buscam esportes radicais: a experiência do instrutor é fundamental, mas o estado do equipamento é o que realmente sustenta a vida no ar.
Não podemos tratar quedas de asa-delta como “riscos do ofício” aceitáveis. Cada falha deve ser tratada como um erro sistêmico que precisa de correção imediata.
A fiscalização sobre as rampas de decolagem, como a da Pedra Bonita, deve ser constante e implacável, sem espaço para o jeitinho brasileiro.
O luto das famílias se mistura agora com a busca por respostas que o vento não pode dar.
A aviação, mesmo a esportiva, é escrita com regras de sangue; cada acidente deve gerar uma nova norma que impeça a próxima morte.
A pergunta final que fica para os órgãos de turismo e segurança é: estamos fazendo o suficiente para que o céu do Rio continue sendo um lugar de sonhos e não de pesadelos?

