Afinal, as muralhas da escola servem para proteger a infância ou para ocultar o inexorável aviltamento da inocência sob o manto do cotidiano?
O caso de Guilherme de Paula Petelincar, inspetor detido na Zona Norte de São Paulo, não é apenas um registro policial; é o sintoma de uma patologia institucional profunda.
A escola, que deveria ser o invólucro sagrado do aprendizado, transformou-se no cenário de um estratagema predatório meticulosamente executado.
O papel do “inspetor” é, por definição, o de quem vigia para garantir a ordem, mas aqui o olhar do guardião tornou-se o panóptico do agressor.
É a ironia mais ácida: aquele a quem confiamos a vigilância dos nossos filhos foi quem utilizou essa proximidade como salvo-conduto para a infâmia.
O abuso de meninos de 8 e 11 anos — um deles diagnosticado com autismo — revela a pusilanimidade de quem escolhe a vulnerabilidade máxima como alvo.
A exploração da deficiência e da ingenuidade não é apenas um crime; é uma profanação do contrato social básico que sustenta a educação.
A descoberta, iniciada por um rastro digital nos aparelhos das vítimas, expõe a falsa segurança que os muros escolares tentam projetar.
O predador moderno não se esconde apenas em becos escuros; ele ocupa cargos de conveniência, portando crachás e chaves oficiais.
Guilherme admitiu o “contato virtual”, tentando reduzir a magnitude de sua perversidade a um mero desvio de conduta cibernético.
Contudo, a perícia e os depoimentos apontam para o contato físico no banheiro, o locus clássico da invisibilidade dentro do ambiente escolar.
A presença de pornografia infantil em seus arquivos pessoais é a confirmação de que a escola era apenas o seu campo de colheita.
A pergunta que a sociedade evita fazer é: como um indivíduo com tal índole transita por quatro meses sem despertar o escrutínio dos pares?
A vacuidade dos processos de seleção em instituições públicas permite que “Guilhermes” infiltrem-se na engrenagem pedagógica com facilidade espantosa.
Não basta o registro de antecedentes criminais; a prevenção exige uma vigilância meta-analítica sobre quem lida com o futuro do país.
O “e daí?” deste caso é um alerta sobre a banalização do cargo de inspetor, frequentemente visto como uma função periférica e sem risco.
Esta tragédia em Ribeirão Preto e São Paulo demonstra que o perigo é ubíquo e reside na confiança cega depositada na estrutura.
A escola não pode ser um depósito de crianças sob a guarda de desconhecidos cujo único filtro é a burocracia estatal.
O trauma imposto a esses meninos é imprescritível e altera o curso de suas vidas de forma irremediável, uma cicatriz psíquica indelével.
A justiça que se busca agora, com a prisão preventiva, é o remédio amargo para uma ferida que a negligência institucional permitiu que se abrisse.
Resta-nos questionar: até quando a sociedade aceitará que a proteção da infância seja apenas uma nota de rodapé em comunicados oficiais de “repúdio”?

