A condenação de um influenciador ligado à medicina tradicional chinesa por manter uma mulher em condições análogas à escravidão por cerca de três décadas, em Campinas, no interior de São Paulo, trouxe forte repercussão nacional e levantou questionamentos sobre relações de poder, fiscalização trabalhista e responsabilidade social de figuras públicas.
O caso envolve Peter Liu, conhecido nas redes sociais por divulgar práticas terapêuticas orientais e conteúdos voltados ao bem-estar físico e emocional. Com milhões de seguidores em diferentes plataformas, ele construiu uma imagem pública associada à saúde, equilíbrio e qualidade de vida, contraste que pesou na avaliação judicial do episódio.
De acordo com a decisão da Justiça do Trabalho, a mulher foi submetida a um regime de trabalho contínuo por aproximadamente 30 anos, sem registro em carteira, sem direitos trabalhistas e em condições consideradas degradantes. A identidade da vítima foi preservada, conforme prevê a legislação em casos dessa natureza.
Os autos indicam que a mulher iniciou as atividades ainda jovem, exercendo funções domésticas e de cuidado familiar. Ao longo dos anos, suas atribuições se ampliaram, sem que houvesse formalização do vínculo empregatício ou adequação das condições de trabalho às normas legais vigentes.
O processo descreve jornadas prolongadas, que se estendiam do início da manhã até a noite, com relatos de chamadas fora do horário regular e ausência de descanso semanal adequado. A Justiça entendeu que a rotina imposta comprometia a dignidade e a autonomia da trabalhadora.
Um dos pontos considerados mais graves foi a precariedade do local de descanso. Conforme consta na sentença, a mulher chegou a dormir em uma maca localizada no consultório de medicina chinesa mantido na residência da família e, em outros períodos, em espaços improvisados, sem estrutura mínima.
Outro aspecto destacado foi a forma de remuneração. Segundo os relatos acolhidos pelo Judiciário, não havia pagamento regular de salário. Em diversas ocasiões, a mulher recebia apenas valores residuais de compras realizadas para a casa, situação que reforçou a caracterização de exploração.
A decisão judicial ressaltou que a dependência econômica, aliada ao isolamento social e à ausência de alternativas concretas, contribuiu para a manutenção do vínculo abusivo ao longo de décadas, configurando trabalho análogo à escravidão em ambiente urbano.
Em sua defesa, Peter Liu alegou que a mulher era funcionária de sua ex-esposa e que não mantinha relação direta com ela há mais de 20 anos. Sustentou ainda que não exercia controle sobre as atividades desempenhadas no âmbito doméstico.
No entanto, a análise do conjunto probatório levou a Justiça a uma conclusão diferente. Fotografias, depoimentos e outros elementos indicaram convivência frequente e participação ativa do influenciador no cotidiano da residência durante o período analisado.
A sentença enfatizou que a responsabilidade trabalhista não se afasta pela informalidade ou por acordos verbais, sobretudo quando estão presentes condições que ferem direitos fundamentais previstos na Constituição e na legislação trabalhista.
Como consequência, o influenciador foi condenado ao pagamento de verbas trabalhistas acumuladas ao longo dos anos, além de indenização por danos morais, fixada em valor expressivo, compatível com a extensão do dano reconhecido.
O montante total da condenação ultrapassa a casa de um milhão de reais, segundo os cálculos apresentados no processo, refletindo a soma de salários não pagos, encargos legais e compensação pelo sofrimento imposto à trabalhadora.
O caso ganhou destaque também por envolver uma figura de grande alcance digital, reacendendo o debate sobre a coerência entre discurso público e práticas privadas de influenciadores que atuam no segmento de saúde e bem-estar.
Especialistas em direito do trabalho avaliam que situações de exploração prolongada não se restringem a áreas rurais ou contextos de extrema pobreza, podendo ocorrer em centros urbanos e em ambientes aparentemente estruturados.
Entidades de defesa dos direitos humanos apontam que o trabalho doméstico ainda é um dos setores mais vulneráveis a abusos, especialmente quando há relações assimétricas de poder e ausência de fiscalização contínua.
A decisão judicial reforça o entendimento de que a escravidão contemporânea pode assumir formas silenciosas, sustentadas por dependência emocional, econômica e social, sem necessidade de restrição física explícita.
O processo ainda pode ser objeto de recurso, o que significa que a condenação não transitou em julgado. Até o encerramento definitivo do caso, novas manifestações das partes podem ocorrer nas instâncias superiores.
Enquanto isso, a repercussão do episódio segue impactando a imagem pública do influenciador e alimentando discussões sobre ética, responsabilidade social e limites da atuação de personalidades digitais.
O caso de Campinas passa a integrar o conjunto de decisões que buscam dar visibilidade a práticas ilegais historicamente invisibilizadas, especialmente no ambiente doméstico, onde a linha entre trabalho e exploração muitas vezes é ocultada.
Ao reconhecer a existência de trabalho análogo à escravidão por um período tão prolongado, a Justiça sinaliza a importância da vigilância permanente e da denúncia como instrumentos fundamentais para a proteção da dignidade humana.

