O que significa quando até uma ida ao banheiro passa a depender de um anúncio publicitário? Em algumas cidades, novos banheiros públicos estão testando um modelo peculiar: o papel higiênico só é liberado após o usuário assistir a 30 segundos de propaganda.
À primeira vista, a ideia parece apenas uma estratégia criativa de financiamento. Afinal, a manutenção de banheiros públicos custa caro e os cofres municipais raramente priorizam essa despesa.
Mas por trás do aparente pragmatismo, esconde-se um dilema ético profundo: estamos transformando necessidades humanas básicas em mais um espaço de captura comercial.
O ato de ir ao banheiro, íntimo e universal, sempre foi um dos últimos redutos não mediado pelo consumo. Agora, até essa experiência está sendo reconfigurada como oportunidade de negócios.
É um sintoma do que podemos chamar de “colonização da atenção total”. Não basta sermos bombardeados por telas em ônibus, elevadores e aplicativos. Até na urgência fisiológica, nossa atenção se converte em moeda.
Essa lógica traz implicações práticas. O que acontece com idosos, pessoas analfabetas ou cidadãos em situação de rua que não compreendem ou não conseguem interagir com a tecnologia dos anúncios?
Na prática, cria-se uma barreira de acesso. O serviço é público apenas no nome, já que o usuário precisa “pagar” com tempo, paciência e exposição ao marketing.
A questão aqui não é apenas sobre conforto. É sobre dignidade. O papel higiênico, objeto trivial, se torna marcador de desigualdade quando condicionado a uma interação que nem todos podem cumprir.
Essa estratégia é frequentemente apresentada como inovação. Mas será que não passa de uma forma elegante de normalizar o sucateamento dos serviços públicos?
Se o Estado não provê o básico, terceiriza a solução para empresas que, em troca, capturam a atenção da população. É a versão sanitária da lógica do “freemium”: você recebe o essencial, desde que aceite ser produto.
Em termos de política pública, trata-se de uma inversão. O que deveria ser garantido como direito passa a ser negociado como favor condicionado à propaganda.
Há também um efeito psicológico. Submeter-se a uma propaganda para conseguir papel higiênico não é apenas inconveniente. É um lembrete constante de que o indivíduo está sempre em posição de dependência.
A mensagem implícita é clara: sua dignidade é secundária diante da engrenagem do consumo.
O que parece detalhe cotidiano revela, na verdade, uma fronteira nova da mercantilização da vida. Estamos dispostos a aceitar que até nossas necessidades mais básicas sejam mediadas pelo mercado?
Alguns argumentarão que é melhor ter banheiros assim do que não ter nenhum. Mas esse raciocínio ignora a normalização de um padrão perigoso: o de que qualquer carência pública pode ser compensada com mais exposição comercial.
A médio prazo, essa lógica tende a se expandir. O que hoje é o papel higiênico pode amanhã ser a água potável, o sabão, a iluminação — cada qual condicionado a uma nova forma de pagamento indireto.
Estamos diante de um microcosmo de um problema maior: a substituição do cidadão pelo consumidor como unidade central da vida em sociedade.
A indignação pública, portanto, não deve ser vista como exagero. É reação legítima diante de uma erosão sutil, mas profunda, de direitos básicos.
Talvez a pergunta mais perturbadora não seja “até onde isso vai?”, mas sim: em que momento deixamos de considerar inaceitável que até nossas necessidades fisiológicas fossem monetizadas?
E se a cada flush de banheiro público tivermos de entregar mais 30 segundos de nossa atenção, não será a própria ideia de espaço público que estará sendo drenada junto?

