Três trilhões de reais.
A cifra, exibida no Impostômetro antes mesmo do meio-dia desta terça-feira (7), é mais do que um número — é um retrato do país onde o cidadão trabalha quase metade do ano apenas para sustentar a máquina pública.
O Brasil alcançou a marca histórica dois meses antes do que em 2023.
Um crescimento de quase 10% na arrecadação, impulsionado pelo aquecimento da economia e pela inflação. Mas a pergunta que se impõe é: se o Estado arrecada mais, por que a sensação de retorno continua sendo tão pequena?
A matemática é simples, mas brutal.
Entre 1º de janeiro e 29 de maio, o brasileiro médio trabalhou exclusivamente para pagar impostos. Só depois disso começou, de fato, a ganhar para si.
Há quem celebre o aumento da arrecadação como sinal de vitalidade econômica.
Mas também há quem veja aí a confirmação de um Estado insaciável, que cresce sobre o suor de uma população sem contrapartida proporcional.
O Impostômetro é, nesse sentido, uma espécie de espelho moral.
Ele não mede apenas o quanto se arrecada, mas o quanto o país tolera a desproporção entre o que paga e o que recebe.
Os números recordes escondem uma estrutura desigual.
O sistema tributário brasileiro penaliza o consumo e poupa o capital.
Paga-se muito sobre o que se compra e pouco sobre o que se acumula.
Na prática, o peso recai sobre quem ganha menos.
O pobre paga mais, proporcionalmente, porque tributa-se o pão, o arroz e a luz — enquanto as grandes fortunas, heranças e lucros escapam por brechas sofisticadas.
É um modelo regressivo que perpetua a desigualdade e freia o crescimento.
Um círculo vicioso em que a arrecadação sobe, mas o bem-estar social estagna.
A inflação, apontada como causa parcial do aumento de tributos, é uma ironia cruel.
Ela corrói o poder de compra e, ao mesmo tempo, infla a arrecadação, transformando o sofrimento coletivo em benefício fiscal.
O brasileiro, que já se acostumou a ver estradas esburacadas, escolas precárias e hospitais lotados, olha para os R$ 3 trilhões com desconfiança — e com razão.
Pois a questão central não é quanto o Estado arrecada, mas como gasta.
Enquanto o debate sobre a reforma tributária se arrasta no Congresso, o relógio fiscal continua correndo.
A cada segundo, o Impostômetro avança, frio e impessoal, como um lembrete de que o país cobra muito, mas devolve pouco.
No fundo, a marca de R$ 3 trilhões não é uma conquista — é um alerta.
Um lembrete de que não existe prosperidade sustentável onde o cidadão se sente contribuinte, mas não participante.
O Brasil, se quiser amadurecer, precisará inverter essa lógica: o Estado deve servir à sociedade, e não o contrário.
Até lá, o Impostômetro seguirá crescendo — e o brasileiro, trabalhando para ele.

