A sentença de oito anos de prisão para os influenciadores Hytalo Santos e Israel Natan (Euro) coloca um ponto final em uma das discussões mais pesadas do mundo digital: até onde vai a liberdade de criar conteúdo quando o lucro depende da exposição de menores?
A Justiça da Paraíba não viu ali apenas “vídeos de dancinhas” ou entretenimento. A condenação por produção e divulgação de material com conotação sexual envolvendo adolescentes revela que, por trás das câmeras e das mansões, existia um esquema montado para vender a infância em troca de cliques.
O Reality Show da Exploração
O Ministério Público (GAECO) foi certeiro ao descrever o formato como um “reality show digital”. O problema é que esse show usava adolescentes como peças de um tabuleiro desenhado para atrair o público através da erotização.
- A Moeda do Crime: O objetivo não era apenas a diversão, mas a monetização. Cada visualização em vídeos de adolescentes em poses ou danças eróticas se transformava em dinheiro vivo nas contas dos influenciadores.
- O Alcance das Plataformas: Instagram, TikTok e YouTube serviram como vitrines para esse conteúdo, levantando novamente a dúvida sobre como essas empresas fiscalizam o que é postado para milhões de jovens.
O “E Daí?” da Sentença
Oito anos de prisão é uma pena que manda um recado claro para o mercado de influenciadores: adolescentes não são ferramentas de marketing para gerar engajamento sexual. Muitas vezes, esses jovens são atraídos pela promessa de fama, presentes e uma vida de luxo ao lado de grandes nomes da internet. Eles acabam aceitando participar de gravações que, no futuro, podem destruir sua saúde mental e sua privacidade, tudo para alimentar o algoritmo de terceiros.
O Ceticismo Necessário
A condenação aconteceu, mas o dano já foi causado. O material circulou, foi baixado e compartilhado milhares de vezes. A internet tem uma memória longa e cruel, e essas vítimas carregarão o peso dessa exposição por muito tempo.
Além disso, fica a pergunta: como esses influenciadores conseguiram operar esse esquema por tanto tempo sem que as plataformas derrubassem suas contas preventivamente? O sistema de denúncias parece ter falhado diante da velocidade com que o lucro era gerado.
Essa decisão na Paraíba é um marco. Ela tira o foco da “brincadeira de internet” e coloca o crime no seu devido lugar: exploração de vulneráveis.
O sucesso nas redes sociais não pode ser um salvo-conduto para ignorar as leis de proteção à criança e ao adolescente. O brilho dos filtros do Instagram não consegue esconder a sujeira de um esquema que usa a inocência como mercadoria.
A pergunta final que fica para todos nós, que consumimos conteúdo diariamente, é: estamos sendo cúmplices dessa exploração ao dar o “like” em conteúdos que cruzam a linha do que é aceitável?

