Um portão destrancado. Dois cães estressados. E uma vida marcada para sempre.
O ataque sofrido por Rogério do Nascimento, 54 anos, em Cambé (PR), é mais do que uma tragédia isolada — é o retrato de uma falha coletiva: o colapso da convivência entre humanos e animais em espaços urbanos sem regras claras ou responsabilidade efetiva.
O vídeo do ataque, gravado por uma câmera de segurança, é brutal. Rogério caminha pela calçada, distraído, quando é derrubado por um pitbull. Em segundos, o segundo cão se junta, e a cena se transforma em desespero.
A violência é desmedida — e familiar. Casos assim têm se repetido com frequência perturbadora em todo o país.
A tutora admitiu culpa. Disse que o portão “nunca era trancado” e que o vento pode tê-lo aberto. Confessou também que os cães estavam “muito estressados”.
Mas sua sinceridade, embora rara, não a absolve. Expõe uma negligência que começa dentro de casa e termina em um hospital.
Rogério perdeu a visão de um olho e parte da orelha. Três dias internado, alta com sequelas permanentes.
A dor física é só o primeiro capítulo de uma história que poderia ter sido evitada com um simples cadeado.
A Polícia Civil abriu inquérito por lesão corporal. A Prefeitura confirmou que já havia feito visitas anteriores, orientando sobre o uso de focinheira.
Nada disso impediu o ataque. E é aí que o caso transcende o noticiário policial: o Estado sabia, alertou — mas parou por aí.
Em cidades brasileiras, a legislação sobre cães de grande porte é um mosaico confuso. Cada município cria suas próprias regras, raramente fiscalizadas.
Enquanto isso, a criação de raças como pitbulls cresce sem controle, movida por vaidade, status e desinformação.
Não é o pitbull o problema — é a irresponsabilidade humana que o cerca.
Raças fortes exigem disciplina, socialização, rotina e limites. Ignorar isso é como dirigir um carro potente sem saber frear.
A tutora alega que buscou ajuda de um adestrador para doar os animais.
Mas por que cães conhecidos por agressividade continuavam soltos, em um portão sem tranca, numa rua residencial?
A resposta é simples e incômoda: porque ainda acreditamos que “nada vai acontecer”.
E quando acontece, chamamos de tragédia — quando, na verdade, é consequência.
A prefeitura agora fala em retirar os cães e punir a tutora. A reação é tardia, mas necessária.
No entanto, sem política pública sólida, tudo se repete: o caso vira manchete, gera indignação, e depois é esquecido.
Talvez o mais chocante não seja o ataque em si, mas a normalização da negligência.
Vivemos cercados de leis que ninguém cumpre, portões que ninguém tranca e riscos que todos fingem não ver.
O portão de Cambé é metáfora e espelho.
Abriu-se não apenas para dois cães furiosos, mas para uma discussão urgente sobre responsabilidade, empatia e poder.
Até quando aceitaremos que a previsível continue sendo tratada como fatalidade?
Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, novos portões continuarão se abrindo — e novas vítimas continuarão a cair.

