Homem construiu apartamento secreto em parte não usada de shopping e morou lá por 4 anos antes de ser pego

O caso envolvendo a construção de um apartamento secreto dentro de um shopping e a permanência ali por quatro anos antes da descoberta ganhou repercussão internacional e agora figura também em um documentário que revisita os acontecimentos. A história, surpreendente tanto pela audácia quanto pela duração do episódio, ocorreu no Providence Place Mall, um grande centro comercial na cidade de Providence, estado de Rhode Island, nos Estados Unidos.

Em 2003, um grupo de oito artistas locais, liderados por Michael Townsend, identificou uma área inutilizada de aproximadamente 70 metros quadrados no interior da estrutura do shopping que não havia sido destinada a lojas, corredores ou serviços. Esse espaço estava escondido entre paredes de lojas e abaixo de áreas de circulação e foi transformado de forma clandestina em um apartamento funcional, completo com alguns móveis básicos e ligação clandestina à energia elétrica do centro comercial.

O interesse inicial pelos espaços internos do Providence Place tinha raízes culturais e sociais mais amplas. Muitos dos artistas envolvidos viam o shopping como símbolo de gentrificação e transformação urbana que pressionava a comunidade criativa local, forçando a saída de antigos moradores e espaços culturais em prol do desenvolvimento econômico centrado no consumo. Essa motivação ajudou a alimentar a ideia de instalar-se ali, ainda que de maneira não convencional.

A escolha de Townsend e seus colegas não foi casual: durante a construção do mall nos anos 1990, uma campanha publicitária havia sugerido, de forma hipotética, que o lugar tinha tudo o que alguém poderia precisar para viver ali, o que acabou inspirando os artistas a transformar a teoria em prática.

Com comunicação limitada e acesso restrito aos funcionários do shopping, o grupo começou a transportar gradualmente móveis e objetos que tornassem o espaço minimamente habitável. Foram adicionados sofá, mesa de jantar, cadeiras, um sistema de entretenimento com televisão e até um console de videogame, além de materiais de construção como blocos de cimento para erguer uma parede que dividisse e isolasse o local.

O apartamento improvisado não tinha água encanada, então os moradores faziam uso dos banheiros públicos disponíveis no próprio shopping quando necessário. Ainda assim, a ausência de luz natural e a proximidade com áreas técnicas e de serviço criavam um ambiente peculiar, que muitos descreveram como tanto claustrofóbico quanto simbólico da natureza oculta da experiência.

A vida no interior do mall não era contínua nem permanente: os artistas se revezavam, frequentando o apartamento de forma intermitente ao longo dos quatro anos, muitas vezes apenas como um ponto de encontro ou abrigo temporário. Ainda assim, nenhuma das inúmeras incursões durante esse período chamou a atenção das equipes de segurança.

Durante esse tempo, Townsend e seus colegas também utilizaram o apartamento como ponto de coordenação de iniciativas artísticas externas, incluindo projetos de murais em hospitais infantis e outras colaborações criativas. A existência do espaço era em grande parte desconhecida pelo público e pelos funcionários até que itens da ocupação começaram a desaparecer ou chamar atenção.

Ao longo dos anos, tanto moradores quanto observadores foram capazes de levar vida cotidiana ao interior do espaço. Alguns relatos indicam que os ocupantes chegavam a fazer compras no shopping para justificar a presença de sacolas ou recibos ao entrar no local, o que facilitava a movimentação de objetos sem levantar suspeitas imediatas.

Apesar de toda a criatividade empregada para manter o segredo, a permanência acabou sendo descoberta quando Townsend convidou um amigo para visitar o local. A presença de uma pessoa não registrada nos arredores acabou atrair a atenção de seguranças, que identificaram a irregularidade, adentraram o espaço e encontraram o apartamento transformado.

Após a descoberta, Townsend foi inicialmente detido sob suspeita de invasão, mas a acusação foi posteriormente reduzida para trespassing, termo legal para circulação ou permanência em local sem autorização. Ele foi condenado a cumprir pena suspensa e, por muito tempo, recebeu uma proibição permanente de entrar no shopping.

O episódio não passou despercebido pela mídia da época, recebendo cobertura em diferentes veículos internacionais, muitos deles intrigados com o método, a permanência e a relativa impunidade com que o grupo conseguiu manter sua habitação improvisada por tanto tempo.

Mais recentemente, a história foi revisitada e ampliada no documentário “Secret Mall Apartment”, dirigido por Jeremy Workman e produzido com apoio de figuras da indústria cinematográfica. O filme apresenta entrevistas com os participantes, imagens de arquivo e reflexões sobre o significado cultural da intervenção.

A produção cinematográfica já teve exibições em salas de cinema e festivais, e mais recentemente está disponível em plataformas digitais para um público mais amplo. A recepção crítica da obra tem destacado não apenas a ousadia da ação, mas também os aspectos humanos e artísticos que permearam a experiência dos envolvidos.

Curiosamente, em preparação para o lançamento do documentário, os administradores do Providence Place integraram a história na programação do próprio mall, construindo uma réplica do apartamento para exibição e, em alguns casos, permitindo que Townsend retornasse ao local, mesmo após a antiga proibição. Isso gerou um novo capítulo na relação entre o espaço comercial e a comunidade artística.

Analistas e comentaristas viram na história tanto uma crítica ao consumo e à transformação urbana quanto uma expressão de resistência criativa diante das pressões do mercado imobiliário e da cultura de consumo dominante. A narrativa ressoa com debates mais amplos sobre o uso do espaço urbano e os significados que diferentes grupos atribuem a esses lugares.

Do ponto de vista jurídico, o caso evidencia lacunas nas formas de vigilância e segurança de grandes complexos comerciais, que podem conter áreas subutilizadas ou inacessíveis, o que levanta questões sobre responsabilidade, manutenção e uso desses espaços.

A história também contribuiu para discussões sobre a reutilização de estruturas subutilizadas em zonas urbanas, um tema que vem ganhando relevância em muitos países diante da crise de moradia e da necessidade de repensar modelos de habitação tradicional.

Ao mesmo tempo, autoridades locais e urbanistas refletem sobre como a ocupação inesperada de um espaço tão improvável pode inspirar novas abordagens para a integração de diferentes usos em grandes empreendimentos comerciais e comunitários.

Por fim, a trajetória de Townsend e seus colegas — desde a construção secreta até o reconhecimento público por meio de uma produção audiovisual — levanta questões sobre a linha tênue entre infração legal e expressão cultural. O impacto duradouro dessa história, agora acessível a um público global, destaca a complexidade de situações em que criatividade, necessidade e normas legais se entrelaçam.

A narrativa do apartamento secreto no shopping permanece um exemplo único de como espaços aparentemente destituídos de significado podem revelar histórias relevantes sobre sociedade, arte e a relação das pessoas com o ambiente construído ao redor.

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