O que acontece quando crianças que cresceram cercadas de privilégios desejam justamente aquilo que o dinheiro tornou dispensável? A resposta, curiosamente, veio da boca de Gusttavo Lima — e não fala de mansões, jatins ou cifras astronômicas.
Em entrevista recente, o cantor revelou um desejo quase banal de seus filhos, Gabriel, de 8 anos, e Samuel, de 6: andar de ônibus. E mais — experimentar um voo comercial, como qualquer outra criança anônima em um aeroporto comum.
O detalhe que transforma a curiosidade em reflexão é simples: eles nunca fizeram isso. Cresceram voando em jato particular, deslocando-se em carros blindados, vivendo numa lógica onde o “normal” é exceção.
Para muitos pais, isso soaria como capricho infantil. Para outros, como piada. Mas, observado com atenção, o desejo carrega algo mais profundo: a curiosidade pelo ordinário, pelo coletivo, pelo que não é exclusivo.
Gusttavo Lima parece ter entendido o recado. Ao comentar o assunto, ele não ironizou nem minimizou. Pelo contrário — usou o momento para falar sobre valores, simplicidade e sobre como tenta transmitir aos filhos uma visão menos distorcida da realidade.
Existe aí uma tensão silenciosa que poucos famosos admitem: como criar filhos emocionalmente saudáveis quando o mundo nunca diz “não” para eles? Quando tudo é rápido, privado e confortável demais?
O ônibus, nesse contexto, vira símbolo. Não de pobreza, mas de convivência. De espera. De compartilhar espaço. De perceber que o mundo não gira em torno de um sobrenome famoso.
O voo comercial também não é sobre classe econômica ou executiva. É sobre filas, anúncios no alto-falante, atrasos, gente diferente, histórias cruzando o mesmo corredor estreito.
Ao dizer que tenta ensinar aos filhos a importância de “dar valor ao que realmente importa”, Gusttavo Lima revela algo raro no discurso de celebridades: consciência do risco de criar herdeiros desconectados da realidade.
Ele próprio veio de uma origem simples — e isso não é apenas um dado biográfico repetido em entrevistas. É uma lente pela qual ele ainda parece enxergar o mundo, mesmo após conquistar tudo o que o dinheiro compra.
Há algo quase poético no fato de duas crianças milionárias sonharem com um ônibus. Como se, intuitivamente, percebessem que a experiência humana não está apenas no conforto, mas no caminho.
Num tempo em que ostentação virou linguagem e privilégio virou identidade, esse relato funciona como um pequeno desvio de rota — discreto, mas revelador.
Talvez o maior luxo que um pai possa oferecer não seja o jato, mas a capacidade de mostrar que a vida acontece também fora dele.
E talvez, no fim, andar de ônibus seja menos sobre transporte — e mais sobre aprender a dividir o mundo com os outros.

