Governo diz que bons condutores poderão ter renovação automática da CNH e candidatos que reprovarem na primeira prova terão direito a segunda tentativa gratuita

E se a maior revolução no trânsito brasileiro não viesse de radares ou multas, mas da redução da burocracia?

As mudanças anunciadas pelo governo no processo de obtenção e renovação da CNH apontam justamente nessa direção: menos obstáculos, menos custos e um Estado que, pela primeira vez em muito tempo, parece desconfiar da própria papelada.

A proposta mais simbólica é a renovação automática da habilitação para bons condutores. Não é apenas uma facilidade administrativa — é uma inversão de lógica.

Em vez de tratar todo motorista como potencial infrator, o sistema passa a reconhecer histórico, comportamento e regularidade. Confiança substituindo desconfiança.

Outra mudança relevante é a segunda tentativa gratuita no exame prático. Hoje, a reprovação custa caro — financeiramente e emocionalmente.

O resultado é um modelo que pune o erro como se ele fosse falha moral, e não parte do processo de aprendizagem. A gratuidade corrige essa distorção.

Já o curso teórico gratuito pelo aplicativo “CNH do Brasil” toca num ponto ainda mais sensível: o acesso.

Durante décadas, a habilitação funcionou como um pedágio social. Quem podia pagar, passava. Quem não podia, ficava à margem.

Digitalizar o conteúdo não resolve tudo, mas remove uma barreira histórica: a dependência de autoescolas para cada etapa do processo.

Isso não significa o fim dessas instituições, mas o fim do monopólio informal que se consolidou ao redor da CNH.

O discurso oficial fala em agilidade e economia. O subtexto é outro: modernização forçada de um sistema que envelheceu mal.

O Detran, símbolo nacional da lentidão, começa a ser pressionado a operar como serviço público — e não como ritual de resistência ao cidadão.

Há, claro, receios legítimos. Automatizar não pode significar afrouxar critérios de segurança. Trânsito não admite improviso.

Mas eficiência não é inimiga da responsabilidade. Pelo contrário: sistemas mais simples tendem a ser mais fiscalizáveis.

Ao reduzir etapas desnecessárias, sobra energia institucional para o que realmente importa: educação, fiscalização inteligente e prevenção.

Também há um efeito colateral positivo pouco comentado: menos intermediários, menos espaço para corrupção miúda.

Cada exigência extra sempre foi uma oportunidade de “atalho”. Menos exigências, menos atalhos.

No fundo, essas mudanças testam algo maior: o quanto o Estado brasileiro está disposto a tratar o cidadão como adulto funcional.

Se der certo, a CNH deixa de ser um símbolo de desgaste e passa a ser um exemplo raro de política pública que simplifica a vida real.

E talvez essa seja a pergunta que fica no ar: se foi possível desatar esse nó histórico, quantos outros ainda existem — apenas esperando coragem política para serem cortados?

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