A economia tem uma forma cruel de nos dar esperança com uma mão e retirá-la com a outra. O anúncio de que Donald Trump recuou nas tarifas adicionais contra o Brasil foi recebido como uma vitória diplomática, mas para o consumidor que está de olho em um novo smartphone, a festa acabou antes mesmo de começar.
A verdade é que o governo brasileiro agiu rápido — e na direção oposta. Ao aumentar a alíquota de importação de mais de mil itens no início de fevereiro, Brasília criou um “muro tributário” que anula qualquer alívio vindo de Washington. O setor de tecnologia, mais uma vez, é o alvo principal.
Estamos diante de um efeito tesoura: enquanto a pressão externa diminui, a pressão interna sobe. Para quem sonha com um modelo premium ou marcas que não fabricam no Brasil, o cenário é de desânimo.
O impacto de 7,2 pontos percentuais a mais nos tributos de celulares importados prontos é uma pancada direta no bolso. Se você estava esperando o dólar ou a diplomacia ajudarem a comprar aquele modelo topo de linha, a conta agora simplesmente não fecha.
Marcas como Realme, Oppo, Honor e os modelos mais potentes da Xiaomi e da Apple (as versões Pro) viraram alvos fáceis. Como não possuem fábricas por aqui, esses aparelhos chegam como “produtos acabados” e sentem o peso total da nova alíquota imediatamente.
A situação das fabricantes que montam no Brasil, como Samsung e Motorola, parece melhor à primeira vista, mas é uma calmaria passageira. Embora o celular pronto não suba agora, as máquinas usadas para fabricá-los ficaram mais caras para importar.
As indústrias brasileiras não vivem em uma bolha; elas dependem de tecnologia estrangeira para atualizar suas linhas de montagem. O aumento no custo dessas máquinas gera um efeito cascata silencioso. Mais cedo ou mais tarde, esse gasto extra na fábrica vai aparecer na etiqueta da loja.
O “e daí?” dessa manobra é o risco de um atraso tecnológico nacional. Se fica mais caro atualizar a fábrica, as empresas demoram mais para trazer inovações, e o consumidor brasileiro acaba pagando mais caro por tecnologias que já estão ficando datadas lá fora.
O ceticismo aqui é obrigatório: o governo justifica o aumento como uma forma de proteger a indústria nacional, mas será que taxar a modernização dessas mesmas indústrias faz sentido a longo prazo?
Na prática, o mercado de celulares no Brasil vai ficar ainda mais dividido. Teremos os modelos “populares” produzidos aqui tentando segurar o preço, e um mercado de luxo importado cada vez mais restrito a uma elite financeira.
A “vitória” contra as tarifas de Trump virou uma nota de rodapé diante da realidade da nossa própria alfândega. O Brasil escolheu o caminho do protecionismo em um momento em que o mundo todo está recalculando suas rotas comerciais.
Para o comprador, o conselho é observar os próximos dias. O estoque antigo ainda deve manter o preço, mas a nova remessa de iPhones Pro e aparelhos da Xiaomi já virá com o “carimbo” do aumento brasileiro.
A economia global pode até estar dando sinais de trégua, mas a política tributária interna continua sendo o maior inimigo da sua lista de desejos tecnológica.
A pergunta final que fica para quem cuida da nossa economia é: até quando vamos taxar a inovação como se ela fosse um artigo de luxo descartável, em vez de uma ferramenta essencial para o desenvolvimento?

