Governador de Goiás anunciou premiação para alunos que se destaquem no ENEM. 900 pontos na redação ganhará R$ 10 mil e notas entre 850 e 899 renderão R$5 mil

Quanto vale uma redação?

No estado de Goiás, a resposta é precisa: até dez mil reais, se atingir a pontuação máxima no ENEM.

 

O anúncio do governador trouxe aplausos imediatos de alguns setores.

Para muitos, é o incentivo que faltava para transformar dedicação em recompensa tangível.

 

Mas a pergunta incômoda persiste: será que dinheiro é a melhor forma de estimular o aprendizado?

Ou estamos transformando a educação em mais uma competição regida pela lógica do mercado?

 

A medida cria um paradoxo interessante.

O ENEM, concebido como avaliação diagnóstica, agora ganha contornos de loteria acadêmica.

 

Ao premiar apenas notas altíssimas, o programa reforça a ideia de que sucesso escolar é privilégio de poucos.

E, de certo modo, naturaliza a exclusão dos que já enfrentam desvantagens sociais e educacionais.

 

Não se trata de negar o esforço individual.

Escrever uma redação de 900 pontos exige disciplina, leitura e treino.

 

Mas a meritocracia, quando aplicada sem olhar para desigualdades estruturais, tende a reproduzir as mesmas injustiças que diz combater.

Em escolas com carência de professores e bibliotecas, quantos alunos realmente têm chance de concorrer?

 

Há também um efeito simbólico relevante.

O prêmio sugere que conhecimento só vale quando pode ser convertido em cifras.

 

Educar, no entanto, é mais do que preparar jovens para disputas de desempenho.

É capacitá-los para pensar criticamente, para dialogar com um mundo em transformação.

 

Premiar os melhores pode parecer justo.

Mas corre-se o risco de transformar a sala de aula em arena, onde cooperação dá lugar à competição.

 

Uma política pública deveria equilibrar estímulo individual com inclusão coletiva.

Caso contrário, o prêmio se torna espetáculo, mais útil para manchetes do que para mudar realidades.

 

O gesto do governo goiano revela algo maior: a tentação de simplificar a educação em números e rankings.

Como se o valor do saber pudesse ser medido em pontos e convertido em cheques.

 

A longo prazo, a questão não é quem ganhará dez mil reais.

É se, nesse processo, não estamos empobrecendo o próprio sentido de aprender.

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