A mobilização de efetivos de segurança de Goiás, sob o comando de Ronaldo Caiado, para apoiar o Rio de Janeiro no enfrentamento à criminalidade, é um movimento que transcende a mera solidariedade interestadual.
Trata-se do nascimento de um “Consórcio da Bala” — uma aliança política e ideológica que usa a crise de segurança do Rio como palco para a projeção nacional de governadores alinhados à direita.
A violência no Rio de Janeiro não é só um problema fluminense; é o termômetro nacional da segurança pública. A falência da ordem ali vira um ativo político para quem se apresenta como solução.
Caiado e os demais governadores não estão apenas enviando homens; estão enviando uma mensagem política ao eleitorado de que a resposta à criminalidade deve ser dura, integrada e ideologicamente homogênea.
O apoio a Cláudio Castro, ele próprio um governador sob pressão, é uma tática de fortalecimento mútuo. Ajudar o Rio é capitalizar a imagem de estadista duro no combate ao crime.
A crise da segurança no Rio, com o foco nas vias expressas e regiões centrais, finalmente rompeu a barreira do “problema do morro” e atingiu a sensibilidade do asfalto, exigindo uma resposta espetacular.
A intensificação do policiamento e as operações integradas de Castro são a prova de que a gestão do Rio está, mais uma vez, sob o domínio da reação, não da prevenção estratégica.
A meta de “assegurar a circulação segura da população” nas vias expressas é uma admissão trágica: o Estado está lutando para garantir o básico, a liberdade de ir e vir, que deveria ser inegociável.
No entanto, o reforço de tropas de outros estados é uma solução paliativa e simbólica. A crise da segurança do Rio é estrutural e exige planejamento de longo prazo, não um paliativo logístico.
O envio de policiais de Goiás pode trazer um alívio temporário, mas não resolve o colapso da inteligência local ou a corrupção endêmica que permite o domínio do crime.
A verdadeira pergunta não é quantos homens vieram de Goiás, mas por que a polícia do Rio, uma das maiores e mais bem equipadas do país, não consegue sozinha manter a ordem.
A resposta é incômoda: o problema do Rio não é falta de polícia, é falta de Estado nos territórios dominados e a persistência de um modelo de confronto que falhou.
Ao se unirem, os governadores criam uma frente ideológica que coloca o combate à criminalidade no centro do seu discurso, desvinculando-o da discussão sobre desigualdade e oportunidades.
Este movimento é um ensaio para uma futura coordenação de segurança de viés mais conservador no Brasil, onde a segurança é tratada como guerra e não como política pública complexa.
O apoio externo, embora bem-vindo do ponto de vista operacional, também pode mascarar a responsabilidade local de resolver a crise com estratégias próprias.
A iniciativa, enquanto demonstra solidariedade, também expõe a vulnerabilidade do Rio e sua dependência de um resgate externo para manter a ordem nas suas artérias vitais.
O que assistimos é o teatro da força: um espetáculo de coordenação para restaurar a confiança do cidadão e, ao mesmo tempo, capitalizar a imagem de liderança política forte.
No final, a eficácia dessa coalizão será medida não pelo número de homens enviados, mas se ela for capaz de desmantelar o poder simbólico e territorial das facções, sem ser apenas uma resposta de curto prazo.
O Consórcio da Bala é o novo slogan: a política de segurança vira tática eleitoral, e o Rio, o laboratório para a projeção nacional.

