Pode uma criança de cinco anos compreender, na prática, conceitos de esforço, recompensa e responsabilidade? O caso de Vicky Justus sugere que sim.
A pequena empreendedora improvisou um comércio de cookies e milk-shakes em seu condomínio, movida por um objetivo simples, mas simbólico: comprar os acessórios para uma barraca de acampamento.
O desejo nasceu em uma loja de artigos esportivos. A menina, fascinada por uma barraca gigante, chorou por não poder levá-la para casa. A mãe, Ana Paula Siebert, explicou que o item seria presente em data especial, mas deixou claro: os extras, como colchonetes e lanternas, teriam de ser conquistados por Vicky.
Foi nesse “não” — e na promessa condicionada — que germinou a iniciativa. A frustração momentânea transformou-se em combustível para a ação.
No lugar de esperar passivamente, a criança decidiu agir. Cookies caseiros e milk-shakes tornaram-se seu pequeno capital de troca.
Cada venda, cada moeda recolhida pela casa, foi guardada com zelo. O cofrinho ganhou novo status: deixou de ser brinquedo e passou a ser instrumento de autonomia.
Não é apenas uma história fofa de infância. O episódio revela um traço cultural relevante: a valorização da disciplina como antídoto ao imediatismo.
Vivemos em uma era em que o consumo infantil é amplamente mediado pelos pais, cartões e cliques. O gesto de Vicky rompe essa lógica.
Ela experimenta, em escala reduzida, algo que muitos adultos ainda não praticam: adiar a recompensa para conquistar algo maior.
Essa dinâmica lembra, em versão doméstica, o famoso “teste do marshmallow” da psicologia, no qual crianças são observadas diante da escolha entre um prazer imediato ou uma recompensa maior no futuro.
Vicky, sem saber, internalizou a lógica do segundo marshmallow.
Mas há outro ponto: a forma como o aprendizado foi mediado. A mãe não impôs, tampouco cedeu ao apelo emocional do choro. Estabeleceu um pacto, e nele incluiu a noção de corresponsabilidade.
Esse gesto parental pode parecer banal, mas é sofisticado. É na fronteira entre frustração e incentivo que se forma a musculatura emocional da criança.
O pequeno negócio de Vicky também lança luz sobre a potência do microempreendedorismo. Ainda que em escala doméstica, trata-se da mesma lógica que move startups e empresas: identificar um desejo, mobilizar recursos e testar soluções no mercado.
A diferença é que, em vez de investidores e planilhas, havia vizinhos e moedas. Mas o princípio é idêntico.
O episódio também nos provoca a refletir sobre o futuro. Quantos adultos teriam se beneficiado de experiências assim na infância?
A disciplina de transformar sonho em meta, e meta em ação, é raramente ensinada em escolas. Mas pode nascer em uma cozinha, em uma esquina ou em um cofrinho.
Vicky não apenas aprendeu a contar moedas. Aprendeu que o esforço gera resultado, que a autonomia traz orgulho e que a espera pode ser recompensadora.
No fim, a barraca de acampamento é quase detalhe. O que importa é o acampamento invisível que ela ergueu dentro de si: feito de resiliência, paciência e iniciativa.
E essa lição, conquistada aos cinco anos, pode valer mais do que qualquer brinquedo — porque não se gasta, acumula-se.

