Após mais de dois anos no cativeiro, 20 reféns israelenses mantidos pela Hamas foram finalmente libertados nesta segunda-feira, encerrando um dos episódios mais dramáticos do conflito que teve início em outubro de 2023. O momento, marcado por cenas de alívio e emoção em toda Israel, também reacende um debate sobre as sequelas pós-cativeiro, familiares separados e as marcas que permanecem mesmo após a liberdade.
Para famílias e amigos, a volta dos reféns não foi apenas um episódio de reencontro, mas também um capítulo de dor e cicatrização. Pais aguardaram em hospitais, enquanto igrejas e sinagogas dedicavam preces por seu retorno. Bandeiras amarelas, símbolo dos desaparecidos, continuavam erguidas do lado de fora de hospitais e centros comunitários.
Entre os libertados estavam pessoas que desapareceram durante o ataque associado ao festival Nova, em outubro de 2023. O músico e pianista Alon Ohel voltou para sua casa em Lavon, onde lembranças de seu amor pela música tornaram-se símbolos de resistência entre a população. Segundo parentes, ele foi um dos primeiros a demonstrar sinais de malnutrição extrema e apatia — consequências comuns após longa privação.
Outro caso marcante é o de Omer Shem Tov, que relatou condições severas no campo de cativeiro: restrições alimentares, ameaças constantes e coerção para executar tarefas não relacionadas às suas atividades civis. Seu relato passou a ser amplamente citado como exemplo do impacto psicológico e físico sofrido por muitos dos reféns.
O reencontro entre Avinatan Or e Noa Argamani — separados desde o rapto — representou uma das imagens mais fortes dessas últimas semanas. O abraço em Tel Aviv, captado por emissoras de televisão, circulou nas redes sociais e tornou-se símbolo de uma esperança que persistiu durante 738 dias.
A negociação final, mediada pelos Estados Unidos, contou com suporte de países como Egito, Catar e Turquia. Em uma cerimônia acompanhada por líderes de mais de 20 nações, o presidente americano Donald Trump pronunciou palavras de otimismo, afirmando que o retorno dos reféns “marca o início de um novo capítulo no Oriente Médio”.
A libertação, contudo, teve um alto custo simbólico e humano. Das mais de 250 pessoas sequestradas em 2023, 28 morreram no cativeiro e seus corpos ainda não foram devolvidos. As famílias dessas vítimas afirmam que a recuperação completa — física e emocional — dependerá da restituição desses restos mortais, parte do acordo de paz em andamento.
Além dos reféns prisioneiros, Israel também libertou mais de 1.700 detidos palestinos, incluindo cerca de 250 condenados à prisão perpétua. O dissenso político dentro de Israel intensificou-se após a troca, com grupos opositores criticando a libertação massiva de presos.
Apesar da emoção que envolveu a cerimônia de retorno, especialistas alertam que a reintegração social dos reféns será um processo lento. Muitos apresentaram problemas de saúde mental, incluindo traumas pós-traumáticos, ansiedade e depressão. Médicos especialistas em recuperação pós-cativeiro recomendam acompanhamento psicológico contínuo e programas de reabilitação prolongados.
A frase “hostage syndrome”, termo médico usado para descrever a resposta emocional e mental após o trauma de sequestro, foi mencionada por estudiosos ao lado de casos concretos já documentados no Brasil e no mundo. Ela ilustra a importância de lidar com o legado psicológico dessas duas anos de cativeiro, que envolveu isolamento, tortura e controle extremo.

