Filhos são presos suspeitos de mandarem matar o pai fazendeiro

O crime ocorreu sob o véu da normalidade — duas gerações, disputas de poder, um testamento prestes a ser assinado — e explodiu em violência numa estrada rural de Quirinópolis, Goiás. Jefferson Cury, de 83 anos, foi executado em 28 de novembro de 2023, aos olhos de seu advogado, num episódio que agora a Polícia Civil de Goiás (PCGO) conclui ter sido organizado por seus próprios filhos para apropriar-se de uma herança de cerca de R$ 1 bilhão.

O gancho revela um tema clássico da literatura criminal: o “patrimônio familiar” transformado em motivo de homicídio. Mas aqui, o enredo adquire camadas modernas — holding, testamento em cartório, deadlines, funcionários cúmplices. Segundo a PCGO, os filhos perceberam que o pai estava prestes a transferir o controle dos bens para uma holding — o que os deixaria fora da linha direta de sucessão — e decidiram agir antes.

Os elementos da trama são quase cinematográficos: o senhor de fazenda em sua caminhonete, acompanhado de advogado, parado por pistoleiros à margem da GO-206. Um tiro no rosto do fazendeiro, sobrevivência do advogado com sequelas. Um plano de concretização da herança arquitetado pelos filhos — um corretor associado que visava, segundo a investigação, “faturar ao menos R$ 50 milhões” com a venda futura de terras.

Mas o mais inquietante aqui não é o fato do homicídio ou o valor da fortuna: é o que isso nos diz sobre laços, poder e moralidade. Que tipo de fossilização psíquica faz com que filhos vejam o pai não como figura de veneração, mas como obstáculo ao acesso ao dinheiro? O respeito se torna cifra, o amor se converte em cálculo. O patrimônio não é reconhecimento, é direito adquirido — e o padre (aqui o pai) vira o empecilho.

Essa história projeta um espelho desconfortável para setores privilegiados: riqueza não imuniza para o crime, antes define o risco. O aparente conforto social esconde tensões profundas: quem decide na família, quem herda, quem controla — e o quando matar se torna solução.

Além disso, a logística do crime alerta para algo que ultrapassa a esfera privada: a cumplicidade estrutural. Caseiros de décadas, afilhado, corretor de imóveis — todos vinculados ao patrimônio do fazendeiro — foram usados como engrenagens. Um sistema de subserviência se articula para garantir a passagem do poder de um lado para outro.

Qual o “e daí”? Primeiro: este caso evidencia que as disputas por herança no Brasil ainda são terreno fértil para crimes extremos — não apenas litígios jurídicos, mas planos letais. A lei de sucessões parece vulnerável à violência preventiva. Segundo: reforça a necessidade de atuação multidisciplinar — direito, psicologia, sociologia — para lidar com famílias que convivem com fortunas e silêncios de longas datas. Terceiro: as autoridades devem enxergar essa categoria de crime como mais do que “briga entre herdeiros”, mas como possível desdobramento de esquemas de poder que misturam patrimônio, status e violência.

Em última análise: a morte de Jefferson Cury é mais do que uma tragédia individual. É um símbolo. De até que ponto a lógica da propriedade familiar pode dissolver laços humanos — e transformar o herdeiro no assassino. Pergunto: quantos mais estão sendo arquitetados, sob o verniz da respectabilidade, esperando o documento que abre caminho para o sangue?

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