O assassinato de uma mãe de 84 anos a pauladas pelo próprio filho, em Tocantins, é um ato que a razão se recusa a processar. Não é apenas um homicídio; é um parricídio brutal, a quebra do código sagrado da filiação.
A violência doméstica, que por vezes se manifesta em negligência ou agressões sutis, aqui escalou para a barbárie primária no quintal de casa.
O instrumento do crime — a paulada — reflete uma raiva desmedida, uma fúria que busca a aniquilação total da figura materna.
O ceticismo nos impõe ir além do choque imediato e questionar: o que desintegra a relação de cuidado e transforma um filho em algoz da própria mãe?
Em muitos casos de violência intrafamiliar envolvendo idosos, o crime está enraizado em uma tríade perigosa: dependência financeira, transtornos psiquiátricos não tratados e exaustão do cuidador.
O idoso, em sua vulnerabilidade, torna-se um foco de ressentimento para o dependente que se sente aprisionado ou frustrado pela ausência de autonomia.
A cena do crime no quintal sugere uma agressão em ambiente aberto, mas dentro da clausura do lar, onde a vítima não tinha para onde fugir.
Aos 84 anos, a mãe representava o elo mais frágil da cadeia familiar, totalmente dependente de quem, por lei e afeto, deveria protegê-la.
A prisão do filho pela Polícia Civil é a formalização do horror, mas não oferece resposta para a destruição da história de vida da vítima.
Quantos sinais de agressividade, negligência ou uso de substâncias ilícitas foram ignorados pela comunidade ou pelos outros familiares antes que a situação chegasse a esse ponto de não retorno?
Frequentemente, esses crimes são o ápice de uma violência silenciosa e prolongada, mascarada pela discrição do ambiente doméstico.
O Brasil tem uma legislação de proteção ao idoso que, na prática, muitas vezes falha em se impor contra a apatia familiar e a falta de monitoramento social.
O caso não é apenas um alerta sobre o filho criminoso, mas sobre a omissão coletiva que permite que a vida de um idoso se torne refém de seu agressor dentro de seu próprio lar.
A violência contra idosos, quando culmina em morte, é o último grito de desespero de uma vida que deveria estar sendo honrada e cuidada.
A frieza dos fatos é o assassinato; a tragédia humana é a dissolução do afeto e a falência de uma sociedade que permite que um filho mate sua própria mãe por motivos que, na maioria das vezes, são mesquinhos.

