Quem realmente governa o Brasil: o político que corta impostos ou o que os cobra?
Essa é a pergunta que se esconde sob a recente declaração de Fernando Haddad, ao acusar Jair Bolsonaro de “deixar de cobrar R$ 4,8 bilhões em impostos como deveria”. À primeira vista, parece uma disputa técnica. Na prática, é um embate sobre a alma do Estado brasileiro.
Desde o início do governo Lula, Haddad tem tentado redesenhar o discurso da responsabilidade fiscal. Ao culpar o antecessor por um suposto “rombo tributário”, o ministro busca justificar medidas impopulares de aumento da carga — e, ao mesmo tempo, reposicionar o governo como guardião do equilíbrio econômico.
Mas há uma ironia nessa retórica.
Durante os anos Bolsonaro, o país registrou a menor carga tributária federal desde 2014, segundo a CNI. O corte de IPI, de impostos sobre combustíveis e de tarifas de importação foi amplamente comemorado por empresários e consumidores.
Só que cada desoneração tem um preço, e ele costuma chegar atrasado — na forma de déficits, dívidas e novas cobranças.
Haddad tenta cobrar essa fatura agora.
Mas, ao fazê-lo, transforma a política fiscal em arma ideológica. A crítica ao “populismo tributário” de Bolsonaro é também uma tentativa de reabilitar o papel do Estado arrecadador, aquele que promete eficiência em troca de confiança — promessa que o brasileiro aprendeu a duvidar.
Por outro lado, o bolsonarismo transformou a redução de impostos em sinônimo de liberdade, mesmo que às custas de investimentos públicos e responsabilidade fiscal.
O resultado é um paradoxo: um país que exige mais serviços e, simultaneamente, menos impostos.
A disputa, portanto, não é sobre números, mas sobre narrativas.
Haddad quer provar que cobrar é um ato de responsabilidade; Bolsonaro, que não cobrar é um gesto de libertação.
Ambos, no entanto, continuam reféns de um mesmo dilema: o de um Estado grande demais para ser barato e ineficiente demais para justificar seu custo.
Enquanto isso, o contribuinte segue no meio do fogo cruzado, pagando — seja via impostos diretos, seja pela deterioração dos serviços públicos.
O verdadeiro debate, porém, ainda não começou: não é sobre quem cobrou mais ou menos, mas sobre que tipo de Estado o Brasil quer sustentar.
A acusação dos R$ 4,8 bilhões pode ser apenas o estopim de uma discussão mais profunda.
Porque, no fim, a questão não é o tamanho da arrecadação — e sim o destino do que se arrecada.

