Fabiana Justus diz que fez transplante de medula pelo SUS:”Não foi dinheiro que comprou”

A frase parece quase um paradoxo: Fabiana Justus, filha de um dos empresários mais ricos do país, declarou ter feito seu transplante de medula óssea pelo Sistema Único de Saúde.

Num país onde a percepção comum é a de que saúde pública significa filas, espera e descaso, a revelação choca.

E mais: ela não apenas recebeu o tratamento pelo SUS, como fez questão de afirmar que “dinheiro não comprou” sua nova chance de vida.

O episódio levanta uma questão incômoda: até que ponto nossas certezas sobre o colapso do sistema público resistem ao confronto com casos concretos?

Há, claro, desigualdade. O acesso a médicos de excelência, como ela própria reconheceu, ainda é privilégio de poucos.

Mas o transplante em si, a logística que conecta doador e receptor em escala global, foi garantido por um serviço público frequentemente tratado como inviável.

Isso significa que o SUS é perfeito? Longe disso.

Significa apenas que a narrativa única — a de que só quem tem dinheiro sobrevive — não dá conta da complexidade real.

Transplantes de medula não obedecem a filas convencionais. O fator decisivo não é posição social, mas compatibilidade genética.

E é aqui que a metáfora se impõe: a biologia, ao contrário do mercado, não negocia privilégios.

Nesse campo, um pedreiro pode ser a única salvação de uma herdeira, e vice-versa.

O caso expõe algo raro: uma intersecção entre igualdade formal e destino biológico.

Quando a influenciadora afirma que “dinheiro não comprou minha medula”, ela não apenas relata sua experiência; ela desconstrói um mito.

O mito de que tudo tem preço, de que saúde virou mercadoria absoluta.

Não é o dinheiro que encontra um doador compatível; é o acaso, a estatística, a persistência de políticas públicas.

A história, portanto, não é apenas sobre uma celebridade sobrevivente.

É sobre um sistema que, mesmo combalido, sustenta a vida de ricos e pobres com a mesma régua genética.

E talvez seja esse o ponto mais perturbador: quando a ciência e o SUS se cruzam, a desigualdade dá uma breve trégua.

Mas a pergunta que sobra é a seguinte: será que, como sociedade, estamos dispostos a enxergar esses lampejos de igualdade, ou preferimos seguir alimentando o mito confortável do colapso absoluto?

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