Há histórias que o tempo tenta suavizar, mas que permanecem com o gosto amargo da memória. A de Bruno Fernandes é uma delas — uma cicatriz coletiva que o país carrega. Agora, o ex-goleiro volta a aparecer, falando sobre o filho que teve com Eliza Samudio. Fala com orgulho, elogia o talento do garoto e o chama de “guerreiro”. A escolha das palavras, porém, soa incômoda.
Afinal, como se reconstrói uma imagem após o irreparável? É possível reivindicar o papel de pai quando se foi o protagonista de uma tragédia que destruiu uma vida e despedaçou uma família? Bruno parece acreditar que sim — ou, ao menos, tenta se convencer disso.
Ao dizer que torce pelo sucesso do filho, ele tenta se inscrever em uma narrativa de redenção. A figura do homem arrependido, que cumpre sua pena e tenta recomeçar, tem apelo popular. Mas, no caso dele, o passado não se dissolve tão facilmente.
A história de Eliza Samudio é um lembrete constante do que o Brasil insiste em varrer para debaixo do tapete: a violência contra a mulher e a facilidade com que ela é relativizada quando o agressor é famoso.
Desde que deixou a prisão, Bruno tem circulado por campos de futebol amadores e concedido entrevistas em tom sereno. Diz não querer mais a vida profissional, apenas jogar por prazer. A serenidade, contudo, carrega algo de inquietante — como se a normalidade fosse possível após o que ocorreu.
Enquanto isso, o filho que ele elogia cresce longe de sua presença, criado por quem precisou transformar dor em força. “Guerreiro”, sim, mas por razões que o pai talvez jamais compreenda.
A insistência de Bruno em aparecer como alguém “em paz” revela um traço típico de nossa cultura: a de perdoar facilmente homens que cometeram o imperdoável. O tempo passa, a memória se esvai, e a sociedade parece sempre disposta a oferecer segundas chances — mesmo quando a vítima não teve nenhuma.
Há quem defenda que todos merecem recomeçar. Mas o problema está em esquecer o que foi feito para chegar até aqui. A reabilitação é um direito; a romantização, não.
Ao se colocar como torcedor do próprio filho, Bruno tenta se reaproximar de uma humanidade perdida. O gesto pode ser sincero — ou apenas estratégico. De qualquer forma, revela o desconforto que temos em lidar com o arrependimento de quem ultrapassou o limite do perdão público.
O ex-goleiro diz que não tocará mais no assunto. Mas, ao falar, reabre feridas. Talvez sem perceber, lembra ao país que o horror não se apaga com o tempo, tampouco com frases brandas.
O garoto, fruto de uma história trágica, carrega agora o peso de um sobrenome e a chance de reescrever sua própria narrativa — longe da sombra do pai, mas sob o olhar de uma nação que ainda tenta entender onde termina a pena e começa o esquecimento.
E talvez seja isso o que mais nos incomoda: perceber que, em um país de memória curta, o perdão se tornou mais rápido que a justiça.

