Até onde vai a fronteira entre o amor e a crueldade? A morte do comerciante Igor Peretto, em agosto de 2024, continua a expor as fissuras de uma sociedade que mistura desejo, vingança e um inquietante senso de impunidade.
Nesta quinta-feira (16), a Justiça de São Paulo mandou soltar Rafaela Costa da Silva, viúva da vítima, acusada de envolvimento no crime que chocou o litoral paulista. A decisão reacende o debate sobre como o sistema judicial lida com casos em que as emoções se tornam armas.
Segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), Rafaela teria participado ativamente do plano, ao lado de Marcelly Marlene Delfino Peretto, irmã da vítima, e de Mário Vitorino da Silva Neto, apontado como executor. O trio, conforme a denúncia, agiu por motivo torpe, com meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa de Igor.
Apesar disso, a Justiça entendeu que Rafaela poderia responder em liberdade. Uma decisão técnica, certamente, mas que levanta uma pergunta inevitável: qual o limite entre o benefício legal e o clamor moral?
O crime ocorreu em 31 de agosto de 2024, dentro de um apartamento no Canto do Forte, em Praia Grande. A cena, descrita pela investigação, tem contornos de tragédia íntima — uma história de infidelidade, ciúme e morte que revela a face sombria das relações humanas.
Durante meses, a Polícia Civil reuniu provas, analisou câmeras de segurança e ouviu testemunhas. A linha do tempo do crime foi desenhada com precisão cirúrgica: a traição descoberta, a ruptura emocional e o pacto mortal que se seguiu.
Mas, como em tantos casos no Brasil, o processo judicial se arrasta em meio a interpretações e recursos. O que parece evidente no campo moral se dilui nos labirintos do direito.
O júri popular de Mário e Marcelly foi determinado — um passo importante, mas ainda distante da justiça plena. Já a liberdade de Rafaela, ainda que temporária, gera desconforto entre familiares e observadores do caso.
A cada decisão judicial, renasce a tensão entre o dever de garantir direitos e a necessidade de punir o mal. E, nesse embate, o público oscila entre indignação e descrença.
Casos como o de Igor Peretto revelam que a violência doméstica e passional continua sendo um espelho cruel de nossa cultura — uma onde o amor se confunde com posse e o perdão raramente tem lugar.
O assassinato em Praia Grande não é apenas uma tragédia familiar; é também um sintoma de um país em que a justiça, mesmo quando age, parece sempre chegar tarde demais.
Resta saber se, no tribunal, o júri conseguirá separar emoção de prova, verdade de manipulação.
Porque, no fim, mais do que um crime de sangue, este é um caso sobre poder — o poder de seduzir, de destruir e, acima de tudo, de escapar.
E cada linha do processo é um lembrete de que a justiça humana, como o amor, raramente é cega.

