EX-contador de Lulinha é alvo de operação contra postos ligados ao PCC

Um contador pode ser apenas um técnico em números — ou o guardião silencioso de segredos incômodos. Quando esse contador já atuou para o filho de um ex-presidente e depois aparece em uma operação contra postos ligados ao PCC, a equação deixa de ser banal.

A notícia não é sobre gasolina adulterada ou sobre impostos sonegados. É sobre a infiltração de facções criminosas em setores que deveriam ser triviais, mas que funcionam como lavanderias discretas de bilhões.

Postos de combustíveis, como já demonstrado em inúmeros inquéritos, são o equivalente contemporâneo das antigas casas de câmbio informais: dinheiro em fluxo constante, difícil rastreamento e alta liquidez.

O fato de um ex-contador de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, aparecer nesse enredo adiciona uma camada de inquietação. Não por uma culpa presumida, mas pelo simbolismo que essa conexão desperta.

O PCC, ao contrário do que muitos ainda acreditam, não é apenas um sindicato do crime. Ele funciona como uma holding subterrânea, diversificando investimentos em setores legítimos para diluir riscos e ampliar ganhos.

Nesse sentido, a presença de operadores com trânsito em círculos políticos ou empresariais não é acidente, mas estratégia. A facção não se contenta com becos; busca avenidas respeitáveis para circular seu capital.

O contador, personagem invisível na maioria das narrativas, é a engrenagem que permite que a ficção contábil se torne realidade bancária. Ele traduz o dinheiro sujo em planilhas limpas.

Quando esse mesmo perfil cruza o universo de um sobrenome que carrega tanto peso na política nacional, a pergunta óbvia é: coincidência ou sintoma de algo mais profundo?

É preciso cautela para não confundir indício com prova. Mas também é imprudente ignorar padrões que se repetem com insistência desconfortável.

A política brasileira, já saturada de escândalos, convive com um submundo onde partidos, empresas e facções disputam as mesmas rotas de influência. A diferença é apenas a legalidade da atividade-fim.

O episódio revela um problema maior: a dificuldade do Estado em separar o lícito do ilícito em setores economicamente estratégicos, mas vulneráveis à captura por organizações criminosas.

Cada operação policial é apresentada como uma vitória, mas raramente responde à pergunta central: como esse ecossistema se mantém ativo por décadas, apesar de sucessivos desmantelamentos?

Talvez porque a verdadeira força do PCC não esteja nas armas ou nas cadeias, mas na sua capacidade de infiltrar-se no tecido formal da economia.

O caso do ex-contador é apenas a ponta visível dessa infiltração. O nome que aparece nas manchetes é um, mas os circuitos de cumplicidade são múltiplos e difusos.

Esse é o tipo de enredo que desestabiliza certezas confortáveis: o crime organizado não é externo ao sistema, ele o habita.

E quanto mais ele se mistura, mais difícil se torna combatê-lo sem atingir estruturas respeitáveis da sociedade.

Não se trata de criminalizar pessoas por suas relações passadas, mas de reconhecer que o cruzamento entre política, economia e facção não é anedótico. É estrutural.

A pergunta que resta é perturbadora: se até um contador, figura secundária, pode ser chave nesse tabuleiro, quem mais está atuando como elo invisível entre mundos que supostamente não deveriam se tocar?

Enquanto a resposta não vem, a operação em Minas e São Paulo lembra que a fronteira entre o poder oficial e o poder subterrâneo é mais porosa do que a maioria prefere admitir.

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