A disputa global por minerais estratégicos tem reposicionado o Brasil no centro das atenções internacionais. Em meio à crescente demanda por insumos essenciais à transição energética e à indústria de alta tecnologia, os Estados Unidos avaliam o país como peça-chave para diversificar o fornecimento de terras raras e reduzir a dependência da China.
As chamadas terras raras, conjunto de elementos químicos fundamentais para a fabricação de turbinas eólicas, baterias, veículos elétricos, equipamentos militares e dispositivos eletrônicos, tornaram-se ativo geopolítico relevante. Atualmente, a China concentra a maior parte da produção e do processamento mundial, exercendo influência significativa sobre a cadeia global de suprimentos.
Nos últimos anos, tensões comerciais entre Washington e Pequim intensificaram a busca por alternativas. Restrições chinesas às exportações desses minerais, adotadas como resposta a políticas tarifárias implementadas durante o governo do então presidente Donald Trump, reforçaram a urgência de novos parceiros estratégicos.
É nesse contexto que o Brasil desponta como candidato relevante. O país possui reservas expressivas e já figura entre os principais detentores de recursos de terras raras no mundo. Além do potencial geológico, o Brasil conta com operações em andamento que o colocam em posição de destaque no cenário internacional.
Reportagem do Financial Times aponta que autoridades norte-americanas enxergam o território brasileiro como alternativa viável para ampliar a oferta global desses minerais críticos. Segundo o jornal, Washington tem intensificado diálogos com o governo brasileiro e com empresas do setor.
“Aqui só há oportunidades”, afirmou um funcionário familiarizado com o assunto ao FT. A declaração reforça a percepção de que o ambiente de negócios e o potencial mineral brasileiro são vistos de forma positiva por interlocutores internacionais.
De acordo com a mesma fonte, “O governo brasileiro está aberto a um acordo sobre minerais críticos.” A sinalização indica disposição para parcerias que envolvam investimentos, transferência de tecnologia e integração às cadeias produtivas globais.
No campo prático, a cooperação já começou a ganhar contornos concretos. A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos, conhecida como DFC, aprovou um financiamento de US$ 465 milhões destinado à Mineração Serra Verde.
A Serra Verde opera atualmente a única mina de terras raras em atividade no Brasil, localizada no estado de Goiás. A operação é considerada estratégica tanto para o mercado interno quanto para potenciais exportações.
O financiamento aprovado busca fortalecer a capacidade produtiva da empresa e ampliar sua competitividade no mercado internacional. O objetivo é consolidar uma fonte alternativa de fornecimento fora do eixo asiático.
Além do apoio financeiro direto, a DFC também vem financiando estudos de viabilidade para outros projetos de exploração no estado de Goiás. Esses levantamentos técnicos são etapa fundamental para avaliar custos, impactos ambientais e viabilidade econômica de novas minas.
Goiás tem se destacado como um dos principais polos de terras raras no país. A presença de jazidas com características favoráveis e a infraestrutura regional contribuem para o interesse crescente de investidores.
Especialistas avaliam que, caso os projetos avancem, o Brasil poderá ampliar significativamente sua participação no mercado global. O país já ocupa a segunda colocação em termos de reservas conhecidas, o que reforça sua relevância estratégica.
A eventual expansão da produção brasileira poderia contribuir para maior equilíbrio na oferta mundial. A diversificação de fornecedores é vista como medida de segurança econômica por diversos países consumidores.
No entanto, o desenvolvimento do setor envolve desafios. A exploração de terras raras exige alto investimento inicial, tecnologia avançada e rigorosos controles ambientais, devido à complexidade do processo de extração e separação dos elementos.
Outro ponto sensível diz respeito à capacidade de processamento. Atualmente, grande parte do refino global ainda está concentrada na China, o que significa que a cadeia de valor não se limita apenas à mineração.
Para que o Brasil se consolide como fornecedor estratégico, será necessário investir também em etapas posteriores da cadeia produtiva, agregando valor aos minerais extraídos e reduzindo a dependência externa no beneficiamento.
O interesse dos Estados Unidos, portanto, vai além da simples compra de matéria-prima. Trata-se de uma estratégia mais ampla de reorganização das cadeias de suprimento em setores considerados críticos para a segurança nacional e para a economia de baixo carbono.
Para o Brasil, a movimentação representa oportunidade de atração de capital estrangeiro, geração de empregos e fortalecimento da indústria mineral. Ao mesmo tempo, exige planejamento regulatório, transparência e equilíbrio entre crescimento econômico e responsabilidade socioambiental.
O avanço das negociações e dos investimentos poderá redefinir o papel brasileiro no mercado global de minerais críticos. Em um cenário de transição energética acelerada e competição geopolítica crescente, as terras raras se consolidam como recurso estratégico, e o Brasil passa a ocupar posição cada vez mais relevante nessa equação.

