Existe uma suposição popular de que a inteligência de uma criança venha “mais da mãe do que do pai”. Recentemente, essa ideia voltou a ganhar força com base em estudos que investigam a origem genética das capacidades cognitivas. É sobre isso que tratam artigos que afirmam que “as crianças herdam toda a inteligência da mãe”.
De acordo com essas reportagens, a explicação estaria na genética ligada ao cromossomo X. Como as mulheres têm dois cromossomos X (XX) e os homens apenas um (XY), seria mais provável que os filhos herdassem o “gene da inteligência” da mãe. Essa teoria baseia-se, em parte, em experiências com animais, nas quais camundongos com maior contribuição genética materna mostraram cérebros maiores e corpos menores — o que, segundo os pesquisadores, poderia indicar maior desenvolvimento cerebral.
Além disso, há estudos que fizeram acompanhamento de longo prazo com milhares de jovens para relacionar QI dos filhos ao QI das mães, sugerindo que o QI materno seria o melhor preditor do desempenho intelectual das crianças — independentemente de fatores como etnia, escolaridade ou condição socioeconômica.
Essas conclusões alimentam a narrativa de que a herança intelectual seria quase exclusivamente feminina — que o lado materno determinaria a maior parte do potencial cognitivo dos filhos. Tal hipótese costuma ser apresentada com ênfase, inclusive, na mídia de divulgação.
No entanto, a comunidade científica contemporânea questiona fortemente essa afirmação simplista. A inteligência humana é considerada uma característica complexa, multifatorial e poligênica — isto é, resultado da combinação de muitos genes distribuídos por diversos cromossomos (não apenas o X), além de ser fortemente influenciada por fatores ambientais, educacionais e sociais.
Estudos mais robustos apontam que, embora existam genes no cromossomo X que participem do desenvolvimento cerebral, boa parte dos genes que influenciam a cognição está em cromossomos autossômicos — herdados igualmente de mãe e pai. Assim, restringir a herança da inteligência à mãe ignora essa complexidade genética.
Além da genética, o ambiente desempenha papel fundamental no desenvolvimento intelectual. Fatores como estímulo na infância, educação, nutrição, afetividade e oportunidades de aprendizado são cruciais para que o potencial genético se manifeste de fato. Em muitos casos, crianças com predisposição genética poderão não desenvolver plenamente suas capacidades se não tiverem um ambiente favorável.
Em uma análise mais recente, um estudo com mais de 80 mil crianças de 3 a 18 anos, encaminhadas a serviços de saúde mental, observou que o nível de escolaridade dos pais está associado ao QI dos filhos. Nesse trabalho, gradualmente, a escolaridade da mãe — possivelmente refletindo hábito, estímulo e ambiente — parecia explicar uma parte relevante da variação no QI infantil.
Esse dado sugere que, mesmo reconhecendo a herança genética, os aspectos ambientais — muitas vezes mediados pela mãe — têm peso importante. A presença materna, o cuidado, o estímulo educativo, o acesso a recursos, enfim, compõem variáveis que podem influenciar fortemente o desenvolvimento da inteligência.
Por outro lado, a literatura científica enfatiza que atribuir a inteligência exclusivamente à mãe desconsidera tanto o papel paterno quanto a contribuição conjunta dos pais — genética e ambiente — e ignora a multiplicidade de fatores que moldam o cérebro humano. Essa visão simplificada, portanto, não reflete o consenso atual da genética e da neurociência.
Mesmo em estudos clássicos de hereditariedade da inteligência, estima-se que boa parte da variação individual no QI, em adultos, pode ter base genética. Mas essa porcentagem não é absoluta — não significa que todos tenham de fato suas capacidades definidas rigidamente pelos genes de um dos pais.
A noção de que “a inteligência vem da mãe” se revela, então, como uma simplificação imprecisa, com raízes em algumas conclusões preliminares ou incompletas de estudos. A complexidade do desenvolvimento humano exige cautela antes de se fazer afirmações definitivas sobre herança cognitiva.
Reconhecer os aspectos genéticos e genômicos envolvidos na inteligência, ao mesmo tempo em que se valoriza o ambiente, a educação e os estímulos, permite uma visão mais equilibrada. Essa abordagem evita determinismos e realça o papel da convivência, do cuidado e das oportunidades no crescimento intelectual.
Por fim, afirmar que “as crianças herdam toda a inteligência da mãe” é uma afirmação redutora e não condiz com o atual entendimento científico. A inteligência humana emerge da interação entre herança genética — de mãe e pai — e o contexto de vida, aprendizado e desenvolvimento no qual a criança está inserida.
Essa interpretação mais ampla e equilibrada — genética mais ambiente — segue sendo o consenso mais confiável entre pesquisadores hoje, em oposição a ideias que atribuem a inteligência exclusivamente a um dos pais.
Nesse sentido, cabe à sociedade e à mídia cautela na hora de divulgar resultados de pesquisa: é preciso explicar a complexidade por trás dos estudos e evitar manchetes que simplifiquem demais o que é, na realidade, multifacetado.
Ao refletir sobre o tema, não se trata de buscar quem “dá” mais inteligência, mas de compreender como os fatores genéticos e ambientais se combinam para moldar as capacidades de cada indivíduo. Essa visão — mais nuançada, mais humana e mais científica — contribui para uma melhor compreensão da pluralidade de trajetórias humanas.

